observador.ptObservador - 28 ago. 00:01

O populismo é a resposta dos eleitores à falta de coragem

O populismo é a resposta dos eleitores à falta de coragem

Só há uma maneira de o PSD continuar a ser o maior partido português: perceber onde falhou e porquê; e a presença no governo não pode impedir esse exercício. Os ataques ao Chega nada resolvem.

Os partidos populistas cresceram na Europa por uma razão muito simples: grande parte do eleitorado fartou-se dos partidos tradicionais. O primeiro sintoma foi o crescimento da abstenção. Depois, apareceram os partidos populistas. Havia dois caminhos possíveis. A abstenção continuava a crescer; ou apareciam partidos com discursos novos. Como em democracia a abstenção não pode aumentar permanentemente, apareceram os novos partidos.

Obviamente, os antigos partidos não gostam. Mas não gostam, sobretudo, por uma razão de poder (a ideologia é secundária). Não querem perder poder para os novos partidos. Mas mais do que derrotas eleitorais, temem acima de tudo a perda de poder social, o declínio irremediável. Receiam a mudança da maioria do eleitorado dos partidos velhos para os partidos novos. Foi o que aconteceu em França, com os partidos tradicionais (socialistas e republicanos) a passarem para quarto e quinto lugar. Foi o que aconteceu em Itália, com o desaparecimento dos partidos socialista (e sucessor) e cristão democrata (e sucessor). De formas diferentes, foi o que aconteceu na Áustria, na Bélgica, na Holanda, e nos países escandinavos. Nuns casos, os partidos tradicionais resistiram melhor do que noutros casos. Mas em todos esses países, partidos novos chegaram ao poder, e tornaram-se forças políticas com peso.

Depois há os países híbridos: onde os novos partidos já têm peso político, mas ainda não são dominantes nem chegaram ao governo. São a Alemanha, a Espanha, a Grécia, a Irlanda, Portugal e o Reino Unido. A questão que todos os partidos tradicionais nestes países deviam colocar é a seguinte: por que razão há um número crescente de eleitores cansados de nós, dos nossos discursos? O PSD organizou a sua habitual “universidade de verão”, mas não vi ninguém discutir esta questão com profundidade e seriedade. Sim, vi os ataques habituais ao Chega. Mas isso já não funciona. Esse tempo já passou. (Isto aplica-se igualmente ao PP em Espanha, à CDU na Alemanha e ao Partido Conservador no Reino Unido).

O grande problema resume-se a uma frase: faltou e falta coragem. Coragem para dizer a verdade e coragem para tomar as decisões necessárias. O Chanceler alemão, num discurso esta semana num encontro do seu partido, disse uma frase notável: a Alemanha não produz a riqueza suficiente para pagar as pensões dos reformados no futuro. Tem toda a razão, e passa-se o mesmo na maioria dos países europeus. Todos o sabem, mas ninguém o diz. Disse Merz, e muito bem. Vamos ver se consegue tomar as decisões corretas. Pode ser tarde. Trabalhei na Comissão Europeia entre 2006 e o final de 2012. Quando cheguei a Bruxelas, há quase 20 anos, toda a classe política europeia já sabia que o modelo da segurança social era insustentável. Mas em muitos países, nada fizeram. O pensamento dominante foi sempre o mesmo: vamos esperar que o nosso governo não tenha que resolver esse grande sarilho, e os próximos que resolvam isso. Já chegámos ao tempo dos “próximos.” Já não se pode adiar nem fugir da realidade. Não há tempo. O Chega, o Vox, o AfD, e o Reform Party estão ao virar da esquina. Foi isso que Merz percebeu. Espero que vá a tempo. E o nosso governo percebeu? Se a Alemanha, que é muito mais rica do que Portugal, não produz riqueza suficiente para pagar a segurança social, como irá Portugal pagá-la?

Há mais exemplos. Todos os políticos sérios em Portugal sabem que o SNS nunca será capaz de cuidar da saúde de todos os portugueses. Expliquem isso aos portugueses e tomem as decisões necessárias. Se não o fizerem, haverá mais portugueses insatisfeitos e a votar no Chega.

Todos os políticos sérios sabem que o modelo de educação centralizada no ministério em Lisboa não funciona. Enquanto esse modelo não mudar, a qualidade do ensino e das escolas continuarão a piorar. Digam isso aos portuguese e tomes as decisões necessárias. Se não o fizerem, haverá mais portugueses insatisfeitos e a votar no Chega.

Todos os políticos sérios sabem que os portugueses estão sufocados em impostos. E também sabem que os prejuízos das empresas públicas são pagos por esses impostos. Tenham a coragem de privatizar e de ir gradualmente reduzindo a carga fiscal. Sabem igualmente que as empresas são o motor do crescimento económico e da criação de riqueza. Tenham a coragem de baixar impostos às empresas.

Se este governo não tiver coragem para tomas medidas difíceis, o Chega será o partido mais votado nas próximas eleições. Sou um eleitor da AD, e prefiro que o governo venha a perder com coragem para tomar as decisões certas e tentar resolver os problemas dos portugueses do que perder por falta de coragem. A passagem das decisões difíceis para os próximos já não funciona.

Também espero que a coragem não seja afetada por medo da esquerda ou por causa das pressões das esquerdas. Olhem para as bancadas parlamentares à frente do governo, para os resultados eleitorais, e vejam como estão as esquerdas. Aqueles que não tomam as decisões certas por temerem as pressões das esquerdas (ou das televisões), irão acabar no mesmo estado das… esquerdas.

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