observador.ptObservador - 28 ago. 00:02

Um Fogo Invisível

Um Fogo Invisível

Os incêndios não cessam quando o último foco é dominado. Persistem nos alojamentos vazios, nas mesas sem clientes, nas reservas canceladas, nas contas por pagar, nos empregos em risco.

O fogo — esse elemento ancestral, simultaneamente fascinante e aterrador — revela-se, em tempos de tragédia, como um “espetáculo” paradoxal. A sua devastação, amplamente difundida pelas câmaras televisivas, parece exercer uma inquietante “sedução estética”, que prende o olhar mesmo quando o coração se revolta intensamente. Labaredas que consomem horizontes, fumo que obscurece o céu, helicópteros em voo incessante, bombeiros extenuados, populações em desespero: eis o rosto visível da calamidade, amplificado pela comunicação social e gravado na memória coletiva com a força de um trauma que jamais se esquece.

Contudo, para além da comoção imediata, o incêndio deixa um rasto de destruição que se prolonga no tempo, silencioso e insidioso. Os impactos nas comunidades e nas empresas, sobretudo em territórios de baixa densidade populacional, não cessam com o apagar das chamas. Pelo contrário, intensificam-se, comprometendo a coesão social e hipotecando o futuro desses lugares.

Poderia dar vários exemplos, mas vou focar-me na área que melhor conheço – o Turismo. A sazonalidade continua a marcar o ritmo da atividade, e o verão representa, para muitos negócios, o momento decisivo entre a sobrevivência e o encerramento. Quando uma empresa fecha portas numa localidade já fragilizada, a perda transcende o plano económico: desaparece um ponto de encontro, extingue-se um espaço de vida comunitária, perde-se um motor de emprego local. Em territórios periféricos, o encerramento de uma unidade pode significar menos famílias fixadas, menos jovens com horizontes, menos razões para visitar ou investir.

Os incêndios abrem feridas que se agravam com o tempo, empobrecendo as regiões e, por extensão, o país. E não são apenas os estabelecimentos diretamente atingidos pelas chamas que enfrentam o risco de colapso. Há hotéis, alojamentos locais e restaurantes que, embora poupados ao fogo, ficaram sem clientes, sem reservas, sem condições para operar. Outros viram-se inoperacionais devido a falhas nas comunicações, impossibilitando reservas, pagamentos, contactos com fornecedores e até o cumprimento de requisitos básicos de segurança.

Há ainda negócios que, mesmo distantes do perímetro ardido, foram obrigados a encerrar por força da Situação de Alerta decretada pelo Governo, que interditou o acesso a zonas florestais.

Os números são implacáveis: unidades com taxas de ocupação próximas dos 99% viram-se, de um momento para o outro, reduzidas a 3%. O mês de agosto que deveria ser o mais rentável do ano converteu-se numa “época abaixo da época baixa”. Um agosto cinzento que ameaça comprometer não apenas o exercício de 2025, mas também a atratividade de destinos já de si frágeis. Sem floresta, não há paisagem; sem paisagem, não há turismo; e sem turismo, não há futuro para muitos destes territórios.

Os incêndios não cessam quando o último foco é dominado. Persistem nos alojamentos vazios, nas mesas sem clientes, nas comunicações interrompidas, nas reservas canceladas, nas contas por pagar, nos empregos em risco. Persistem numa economia que arde em silêncio, sem imagens que passem no telejornal.

A tragédia ultrapassa aquilo que o fogo consome: são empresas sem atividade, destinos sem procura, comunidades sem esperança. Que esta consciência nos convoque a agir com a mesma urgência e determinação com que combatemos as chamas visíveis. Porque a reconstrução dos territórios afetados será, em grande medida, a reconstrução da confiança e da vida nesses lugares.

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