eco.sapo.ptNuno Cerejeira Namora - 27 ago. 14:00

‘Burnout’ e o peso insustentável do género

‘Burnout’ e o peso insustentável do género

Está comprovado que as mulheres acabam por ser as maiores lesadas com o excesso de horas de trabalho, apresentando mais sintomas de esgotamento, comparativamente aos homens.

O burnout consiste num esgotamento tanto físico como psicológico, muitas vezes devido a períodos demasiado prolongados de stress profissional. No entanto, essa exposição não passa disso mesmo: meros períodos, ou «picos» de trabalho. Quando o stress deixa de ser a exceção e passa a ser a regra, alguns trabalhadores podem atingir um estado físico e mental quase irreversível. No fundo, ultrapassa-se o ponto em que «deixa de ser um sintoma passageiro e converte-se em uma patologia psiquiátrica».

Tendo em conta o período que atravessamos, os trabalhadores sentem uma pressão enorme, por parte do mercado, para fazer de tudo para «mostrar resultados», devido ao receio de, a qualquer momento, ficarem sem emprego.

É curioso ver que, estatisticamente, está comprovado que as mulheres acabam por ser as maiores lesadas com o excesso de horas de trabalho, apresentando mais sintomas de esgotamento, comparativamente aos homens, verificando-se, deste modo, mais casos de burnout. Tal deve-se ao facto de as mulheres acumularem exigências profissionais e familiares. Ora, esta realidade é o reflexo de uma sobrecarga psicológica que extravasa as exigências estritamente decorrentes do mercado de trabalho, englobando aquilo que está, tradicionalmente, associado ao papel da mulher em sociedade: a «fada do lar», responsável pelas tarefas domésticas e pelo cuidado dos familiares.

A acumulação das responsabilidades laborais e familiares, no papel social desempenhado pelas mulheres, coloca-as numa situação particularmente vulnerável e debilitada. Embora as alterações sociais, no sentido de alcançar a igualdade de género, tenham levado a progressos importantes no que se refere ao acesso das mulheres ao mercado de trabalho, as expectativas sociais que recaem sobre as mesmas, enquanto cuidadoras primárias, não foram eliminadas. Culturalmente, as mulheres são constrangidas a assumir a responsabilidade de zelar pelo bem-estar dos filhos, pelo cuidado dos familiares idosos (ou simplesmente dependentes) e pela domesticidade do lar.

Toda esta carga de trabalho não remunerada, embora fundamental, não é reconhecida (nem valorizada) pelo mercado de trabalho. Na verdade, a sobrecarga que impende sobre as mulheres apenas se intensifica quando as mesmas, na prossecução dos seus objetivos laborais, tentam conciliar a sua carreira profissional com as exigências da vida familiar. O trabalho impõe, muitas vezes, longas jornadas laborais e elevada pressão, especialmente no seio de uma cultura direcionada para a produtividade, que exige sempre o máximo dos indivíduos. Ora, quando essas exigências são somadas às responsabilidades domésticas, o resultado é uma pressão insustentável (particularmente, quando não existe uma divisão equitativa de tarefas entre os géneros).

Assim, os sintomas do burnout, como a exaustão extrema, a falta de motivação e a ansiedade, tornam-se mais evidentes nas mulheres realizam essa «dupla jornada laboral». Ao referido, acresce que o problema não se afigura de simples solução: o estigma social que impende sobre as mulheres que procuram abdicar das suas responsabilidades familiares é uma agravante que contribui para que a presente questão permaneça por resolver. Portanto, a razão para a maior incidência do burnout entre as mulheres é clara.

A falta de políticas adequadas, que criem as condições necessárias para a conciliação trabalho-família, e a contínua desigualdade na distribuição das tarefas domésticas levam a que muitas mulheres se vejam enclausuradas num ciclo vicioso que deteriora a sua saúde mental e física.

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