observador.ptObservador - 28 ago. 00:01

Animais não são pessoas

Animais não são pessoas

Não era preciso confrontar-me com uma cena tétrica para perceber a razoabilidade da lei que proíbe os animais na praia.

Estou na praia.

Olhei para o lado e vejo dois cães. O dono feliz e eu também gosto de os ver a brincar. A entrar e a sair da água, divertidos e contentes.

Pensei para comigo, porque será que é proibido trazer cães para a praia.

De repente, mesmo ao meu lado, um dos animais faz um grande chichi.

Mudei a toalha uns dois metros para o lado e continuei a olhar os dois animados cachorros a aproveitar da praia, do mar e das brincadeiras que os donos os levam a fazer.

Eis senão quando, o outro cachorro tem uma dor de barriga e lá deixou o seu presente na areia, que rapidamente tapou escavando. O dono, distraído por duas estrangeiras que passeavam à sua frente junto ao mar não deu por nada.

Como não eram meus os cães e porque sempre que chamamos a atenção do outro sobre qualquer coisa que deveria ter feito e não fez, acabamos por nos confrontar com uma enorme discussão e vários insultos, também me deixei ficar.

Para todos efeitos a coisa estava escondida e poderia, num par de anos, deixar de ser aquilo que o cachorro tinha lá deixado.

Passou o dia e na manhã seguinte, sento-me na praia e vejo no lugar dos cães do dia anterior, uma mãe com dois meninos muito pequeninos a ocupar o mesmo espaço.

Na verdade, ainda que ternurenta, a cena não chamou a minha atenção por mais de uns poucos minutos e, só algum tempo depois voltei a olhar com mais atenção para aquela família.

A criança mais nova, bem sentada em cima do chichi do cão do dia anterior punha areia na boca como fazem todos os bebés daquela idade e, pior, a outra criança brincava com o que parecia um pau e que não era mais do que os restos da dor de barriga do cão do dia anterior já seco por muitas horas de um sol quente que lhe dava consistência.

Não era preciso confrontar-me com esta cena tétrica para perceber da razoabilidade da lei que proíbe os animais na praia.

É por demais evidente que estamos, neste tema como já verificámos em muitos outros, a extremar a forma como assumimos a nossa realidade de vida.

A enorme campanha, muito bem feita para que se adoptem os animais e que se tratem como seres vivos merecedores do respeito e carinho de qualquer ser vivo, acabou por resultar numa nova forma de veneração pelos animais que nada tem a ver com o respeito que se pretendia e que chega a desconsiderar o respeito que merecem os seres humanos para prevenir a sua penalização.

Chega inclusivamente a tornar-se um tratamento desrespeitador do próprio animal a forma como muitos dos seus donos os tratam, convencidos de que os estão a cuidar, mas estando tão somente a satisfazer frustrações próprias das suas vidas.

A maneira como os vestem, como os prendem às suas casas e às suas vidas, são muitas vezes castradoras das liberdades de que necessitam todos os seres vivos.

A permissividade que temos vindo a sentir na aplicação das normas que inibem a presença de animais, seja nas praias seja em locais de alimentação, de saúde e outros, sensíveis às bactérias e outros elementos, afecta a higiene pública, que tantos anos custou a conseguir.

Estamos, neste campo, a fazer aquilo que se tentou fazer com as questões do género, em que se pretendia destruir aquilo que tanta luta tinha dado para conseguir, como foram as casas de banho diferentes para sexos diferentes.

Os animais devem ser tratados com respeito, com carinho e até com amor, mas não podem ser considerados como inimputáveis, e não podem fazer as suas necessidades às nossas portas ou nas nossas praias, sob pena de prejudicarmos a saúde e a qualidade de vida das nossas comunidades.

Por isso existem leis e por isso essas leis devem ser aplicadas.

No género, precisámos de um Trump para vir dizer que estava errado para que começássemos a voltar ao razoável.

Será que precisamos do Trump para aplicar as leis do nosso país? Deixaremos que a atitude do politicamente correcto, que não nos deixa dizer a alguém que o cão não pode entrar na praia, nos obrigue a reforçar a posição dos partidos mais extremistas para que possamos deixar que os nossos filhos possam pôr areia na boca ou brincar com um pau sem nos preocuparmos que estejam directamente a comer os dejectos de qualquer animal?

NewsItem [
pubDate=2025-08-28 01:01:48.0
, url=https://observador.pt/opiniao/animais-nao-sao-pessoas/
, host=observador.pt
, wordCount=720
, contentCount=1
, socialActionCount=0
, slug=2025_08_27_1930245684_animais-nao-sao-pessoas
, topics=[opinião, ambiente, animais, ciência, natureza]
, sections=[opiniao, ciencia-tecnologia]
, score=0.000000]