Georgios Papadimitriou - 27 ago. 06:59
Depois do apagão, prioridade ao armazenamento
Depois do apagão, prioridade ao armazenamento
Quatro meses depois, a autópsia do apagão tornou clara a necessidade de uma nova arquitetura para o sistema elétrico. A solução não passa por reduzir a ambição coletiva de maior prevalência de renováveis. Pelo contrário
O apagão de 28 de abril provocou uma onda de tensão no debate público sobre a estratégia energética da Península Ibérica. As energias renováveis estiveram no centro das atenções: em ambos os lados da fronteira, com vozes a pedir uma inversão da política e o regresso à energia nuclear, ou mesmo a separação dos mercados de eletricidade de Espanha e Portugal. Muitos apontaram a intermitência da geração solar e eólica, e a sua elevada quota no sistema elétrico, como fator de risco.
Estas opiniões recuaram na justa medida em que o nosso conhecimento e as investigações sobre o evento avançaram. : descarbonizar, reduzir a exposição do sistema energético a choques externos, e garantir energia de baixo carbono, acessível e resiliente, exige mais (e não menos) geração renovável, apoiada por um abastecimento constante e fiável.
Até podermos contar com uma estrutura totalmente renovável e totalmente resiliente, o atual mix energético — combinando energias renováveis com outras fontes estáveis e despacháveis — continua a ser essencial. Este equilíbrio garante a flexibilidade necessária para satisfazer a procura durante os períodos de menor produção de energias renováveis, enquanto se avança no sentido de reforçar a capacidade de armazenamento e de maturar as capacidades da rede. Isto não é um desvio da transição energética: é a ponte que a torna possível.
Os governos português e espanhol responderam ao shutdown ibérico com pacotes de medidas focadas na aceleração de projetos renováveis, reforçando mecanismos de serviços auxiliares e aumentando a capacidade de armazenamento de baterias — prioridades que se alinham com áreas onde a Galp consolidou a sua experiência, resultado de uma estratégia construída com base na antecipação das exigências da transição energética.
A integração de soluções de armazenamento em instalações de geração renovável tornou-se uma alavanca fundamental para otimizar os nossos ativos solares em Espanha e Portugal. Para além do seu papel na estabilização do sistema, estas unidades podem armazenar energia gerada durante os picos de produção solar ou eólica e libertá-la de volta à rede durante períodos de maior procura do sistema.
Em julho, a Galp iniciou a construção de cinco projetos de armazenamento com uma capacidade combinada de 74 MW/147 MWh, elevando a nossa capacidade total para 79 MW/167 MWh — números que colocam a empresa entre os principais operadores de baterias da Península Ibérica.
Em Alcoutim, na sequência de um projeto-piloto de 5 MW/20 MWh em funcionamento desde o início de 2025, lançámos a instalação de quatro novos sistemas de armazenamento com uma capacidade total de 60 MW/120 MWh, integrados no complexo solar do Algarve — um investimento apoiado pelo PRR no âmbito do REPowerEU. Em Espanha, o projeto Manzanares está a avançar, com 14 MW/28 MWh.
Uma das principais inovações tecnológicas nestes projetos é a utilização de inversores grid-forming, um avanço em relação aos sistemas tradicionais de grid-following. Estas novas unidades podem operar de forma independente, gerando inércia sintética, estabilizando a frequência e a tensão e fornecendo um apoio crucial em cenários extremos, como os vividos durante o recente apagão.
A operação é monitorizada em tempo real a partir do Centro de Controlo da Galp, homologado pelos operadores de rede portuguesa e espanhola — REN e REE, respetivamente. A partir deste centro de despacho, são coordenados os ativos solares e eólicos, os sistemas de armazenamento e as principais cargas industriais, permitindo a participação ativa nos mercados de eletricidade e a prestação de serviços auxiliares — desde a regulação da tensão até à reserva de frequência e ao aprovisionamento de inércia sintética.
Com 1,7 GW de capacidade instalada e mais 300 MW em construção, a Galp está focada em aumentar a eficiência e a fiabilidade do sistema elétrico. A instalação de baterias, combinada com soluções de hibridização (solar mais eólica), também maximizará a utilização dos pontos de ligação à rede, atualmente subutilizados na maior parte do tempo.
Não culpem as energias renováveis: a transição energética exige sistemas robustos, integrados e tecnologicamente avançados. A Galp está a investir nesta transformação com mais megawatts renováveis, mais armazenamento, hibridização e prestação de serviços auxiliares para apoiar o sistema elétrico. A combinação destas tecnologias permitirá à empresa manter uma posição de liderança entre os principais intervenientes nas energias renováveis na Península Ibérica e, acima de tudo, ser um agente ativo na segurança energética do bloco ibérico.