observador.ptObservador - 28 ago. 00:02

Fogos em Portugal: sou eu o responsável

Fogos em Portugal: sou eu o responsável

Sou Professor universitário, sou perito de floresta e fogo, sou proprietário florestal, sou cidadão. Sinto-me responsável.

Todos os anos revivemos o mesmo cenário dramático. O país rural arde, cada vez com mais violência, intensidade e extensão. Os telejornais abrem com imagens de fogo a que se seguem comentários de pessoas de diversos quadrantes. Nestes momentos vem ao de cima um sentimento comum de impotência e frustração por não sabermos lidar com esta realidade e não termos a capacidade de encontrar soluções para evitar ou minimizar tamanhas catástrofes. E, no meio de toda este “ambiente vermelho e queimado”, andamos sempre à procura das suas causas e à caça de responsáveis. Afinal quem é o responsável?

Sinto-me responsável pelo que está a acontecer no país. Sou Professor Universitário há mais de 24 anos, lecionando matérias relacionadas com a conservação da natureza, a gestão da vida selvagem e dos seus ecossistemas, a valorização dos produtos endógenos e dos territórios, áreas em que sou coautor de mais de duas centenas de artigos e de uma dezena de livros, para além de centenas de palestras. Coordenei equipas de investigação e, em conjunto executámos dezenas de projetos, muitos deles com impacto nas florestas, no seu uso múltiplo e nos territórios. Orientei dezenas de alunos nos mais diversos graus de ensino, formei, eduquei gerações de profissionais que estão, muitos deles, a trabalhar e a exercer funções relevantes em setores relacionados com o mundo rural, a sua sustentabilidade e a contribuir para um futuro mais próspero dos territórios ditos de interior.

Sinto-me responsável pelo que está a acontecer no país. Fui um dos doze peritos das duas Comissões Técnicas Independentes, criadas no âmbito da Assembleia da República, para analisar e apurar os factos relativos aos incêndios que ocorreram em junho e em outubro de 2017. Foi um extenso e detalhado trabalho em equipa, de prospeção, de auscultação, de análise e de interpretação do que aconteceu no fatídico ano de 2017, que resultou na publicação de dois relatórios de grande relevância, projeção e impacto. Muitas das direções apontadas pós-2017, muita legislação produzida, muitas mudanças no sistema de gestão de fogos rurais, muitas alterações estruturais e institucionais realizadas foram sustentadas nas suas conclusões e recomendações que davam grande ênfase a três pilares: o conhecimento, a qualificação e a governança.

Sinto-me responsável pelo que está a acontecer no país. Fui Chief Technology Officer (CTO) do Laboratório Colaborativo ForestWISE, uma estrutura de interface que integra empresas, entidades públicas e academia, trabalhando em prol da geração e transferência de conhecimento e tecnologia para os domínios da floresta e do fogo em Portugal. Criado em 2018, mas operacionalizado em 2020, rapidamente o CoLAB ForestWISE tornou-se numa entidade credível e incontornável na abordagem aos temas mais complexos da floresta e do fogo sendo, ainda hoje, a entidade nacional que concentra mais competências nestes domínios, considerados essências para a economia nacional e com grandes impactos a nível social e ambiental. A sua extraordinária equipa técnica teve a ousadia de agregar entidades e pessoas focadas em temas fraturantes e essenciais para o futuro da floresta nacional e dos territórios rurais, trazendo conhecimento, inovação e tecnologia para o sistema.

Sinto-me responsável pelo que está a acontecer no país. Sou proprietário agroflorestal, gerindo atualmente cerca de 20 hectares de medronhal, o primeiro certificado a nível mundial, e mais uns quantos hectares de áreas agroflorestais, numa difícil região de minifúndio, trabalhando diariamente para a gestão agregada de terras e da inclusão de pessoas por forma a atingir uma escala e cadeia de valor sustentáveis económica, social e ambientalmente. A estratégia implementada passa pela gestão ativa de parcelas, tendo por base o conhecimento técnico-científico, mas também o empírico e tradicional partilhado pelas populações locais, de forma a tornar o território mais resiliente às constantes ameaças e riscos, nomeadamente aos fogos, tendo como pano de fundo a rentabilidade dos mesmos através da comercialização de produtos e serviços diferenciados e de excelência.

Sinto-me responsável pelo que está a acontecer no país. Sou cidadão nacional, cumprindo os meus deveres e obrigações, estando atento aos padrões das alterações climáticas, dos usos do solo e dos territórios, mas também às mudanças demográficas e à evolução gradual do mundo rural cada vez mais envelhecido, sem mão-de-obra e, a priori, irremediavelmente condenado ao abandono e ao crescente risco.

Todavia, e em abono da verdade, não seremos todos nós responsáveis pelo que está a acontecer no país?

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