Observador - 28 ago. 00:01
Um país menos 3%
Um país menos 3%
É como na economia: estamos sempre muitíssimo bem preparados para os dias bons; com os maus é que nunca estávamos a contar.
279 mil hectares. Era o somatório da área ardida em Portugal este ano até anteontem, 26 de Agosto (sim, ainda estamos em Agosto). Cerca de um quarto do pouco mais de milhão de hectares já ardidos em 2025 em toda a União Europeia. 3% do território nacional. Ardeu com o primeiro-ministro de férias, já se sabe, mas também – pormenor importante em que talvez poucos tenham reparado – com o resto do país de férias também e, aliás, por vezes, a julgar pelos comentários no café e nas redes sociais, um pouco incomodado com o excesso de notícias sobre incêndios nas televisões. Não haverá nada melhor para dar? Nada para distrair?
Estamos habituados a ouvir falar de percentagens de território perdidas e conquistadas a propósito da guerra da Ucrânia. “A Rússia já conquistou 18% do território ucraniano, 20%, a Ucrânia reconquistou 1%, ocupou x quilómetros quadrados de território russo, a linha da frente recuou y, avançou z”. Aqui, não foram precisos os russos. Perderam-se 3% do território nacional, três vezes mais do que a média das últimas duas décadas até à mesma altura do ano, e tirando os bombeiros e as populações que tiveram de lutar directamente contra as chamas para salvarem as suas vidas e os seus pertences, dentro de instantes o país encolherá os ombros e seguirá em frente mais ou menos na mesma, mais ou menos como de costume. Afinal, o inferno tornou-se só mais uma quinta-feira, só mais um Verão.
Talvez se os russos nos invadissem, ou os espanhóis, ou os paquistaneses, nos revoltássemos o suficiente para, mais proteger aqueles 3% de território. A questão é que já nos habituámos. Afinal, não foi agora que os perdemos – já estavam perdidos há muito. É por isso que ardem. Porque os abandonámos. Todos – Estado e cidadãos: os proprietários que vivem longe, os herdeiros que não se entendem para fazer as partilhas nem querem saber; os que desistem de tentar fazer alguma coisa pelo seu quinhão de floresta porque sabem que não servirá de nada enquanto os outros em volta continuarem abandonados.
Se há causas e responsabilidades a apurar pela calamidade deste ano? Sem dúvida. Mas, se, entretanto, fôssemos acautelando as questões para as quais há décadas sabemos as respostas, já teríamos boa parte do problema resolvido.
Esta semana mesmo, outra notícia aparentemente não relacionada deveria fazer-nos pensar e discutir seriamente o que podemos fazer quanto a este assunto: a queda vertiginosa de alunos que se candidataram e entraram nas instituições de ensino superior no interior do país: menos 21% de um ano para o outro. Menos jovens que irão permanecer ou viver para estas regiões, estudar, habitar, eventualmente um dia trabalhar, criar famílias, contribuir para as economias locais, ocupar o território.
Mas, em vez disso, vamos talvez entreter-nos a discutir o vídeo do pateta alcoolizado, apanhado a tentar atear um fogo em Vila Real, ainda por cima, beneficiário do Rendimento Social de Inserção, perfeito para continuar a alimentar toda a espécie de demagogia populista.
Para já, vá fazendo as contas: a 3% ao ano, em quantos anos se vai um país?