observador.ptObservador - 28 ago. 00:02

Os Cristãos da Terra Santa: entre a espada e a parede

Os Cristãos da Terra Santa: entre a espada e a parede

As comunidades cristãs acabam por ser o elo mais fraco: perseguidos pelos palestinianos por serem cristãos, discriminados pelos israelitas por serem árabes.

1.O avanço do extremismo islâmico, assim como as confusões criadas pelo Ocidente, têm levado ao desaparecimento das comunidades cristãs no Próximo Oriente. No Iraque, antes da invasão americana e do posterior terror do ISIS, existiam cerca de um milhão e meio de cristãos. Dessas comunidades seculares, sobram hoje, na melhor das hipóteses, 250 mil. Na Síria, antes da Guerra Civil, a população cristã constituía cerca de 10% da população, um milhão e meio a dois milhões de pessoas. Hoje sobram 300 a 500 mil pessoas, que enfrentam neste momento nova perseguição pelo herói do Ocidente, Ahmed al-Sharaa. O Líbano, até à guerra civil, era um país maioritariamente cristão (cerca de 77% da população); hoje os cristãos não representam mais de 32%. A realidade objectiva, mas demasiadas vezes silenciada, é que, entre a violência e a perseguição, a presença cristã no Médio Oriente está a ser apagada.

2.Infelizmente esta perseguição aos cristãos não é caso único. Basta ver o que acontece na Nigéria, em Moçambique, na República Democrática do Congo, e noutra escala, no Paquistão, na Índia e na China, só para dar alguns exemplos. A infeliz verdade é que os cristãos são hoje o grupo mais perseguido em todo o mundo, perante o silêncio total do Ocidente. O que diriam os nossos activistas se 90% da população islâmica de França desaparecesse?

3.Na Terra Santa, onde também há comunidades cristãs milenares, a situação é mais complexa. Na Faixa de Gaza, o Hamas e outros grupos extremistas islâmicos fomentam a discriminação e a violência contra os cristãos. Na Cisjordânia, embora a Autoridade Palestiniana não persiga os cristãos, a verdade é que a instabilidade política, a constante violência e a pressão dos colonos israelitas estão a levar ao desaparecimento das comunidades cristãs aí presentes. E se em Israel, os cristãos gozam de liberdade de culto e estão a salvo de perseguição religiosa, a verdade é que o Governo de Israel, sobretudo desde o 7 de Outubro, tem insistido no Estado-Nação do Povo Judaico. E o resultado é que as comunidades cristãs acabam por ser o elo mais fraco: perseguidos pelos palestinianos por serem cristãos, discriminados pelos israelitas por serem árabes.

4.O ataque de 7 de Outubro, e a guerra que se seguiu, veio piorar em muito a situação dos cristãos na Terra Santa. Na Cisjordânia, Israel adoptou uma política cada vez mais agressiva de colonatos, expropriando cristãos, assim como terrenos das suas igrejas, para estabelecer colonatos judeus. Mas o pior é o que está a acontecer em Gaza.

5.Na Faixa de Gaza existem actualmente duas igrejas cristãs: a Igreja de São Porfírio, Ortodoxa, e a da Sagrada Família, Católica. Ambas têm servido de refúgio para centenas de pessoas, sobretudo velhos, mulheres, crianças e doentes, que se viram envolvidos numa guerra brutal sobre a qual têm zero responsabilidade, e da qual não podem fugir. São comunidades pobres, que vivem da caridade, e que acolhem pessoas de todas as religiões nesta hora dramática.
Desde o 7 de Outubro, a Igreja de São Porfírio já foi bombardeada uma vez. A Igreja da Sagrada Família foi bombardeada uma vez, e a casa das Missionárias da Caridade, outras. Em ambos os casos, o ataque foi feito por um tanque. Para além disso, pelo menos duas mulheres foram mortas a sangue frio no complexo da Igreja, pelo exército israelita.

6.Mas o pior parece estar para vir. O Governo de Israel ordenou a evacuação da cidade de Gaza, para o ataque em larga escala que tem como objectivo tomar a cidade. Evidentemente que a evacuação é uma miragem: numa região onde tudo falta, para onde podem as pessoas fugir?
Mas no caso dos refugiados nestas duas Igrejas é ainda mais grave. Como já referi, a maior parte são pessoas fragilizadas, sem qualquer possibilidade de fuga. Como afirmam o Patriarca Grego Ortodoxo e o Patriarca Latino de Jerusalém, a evacuação significa a morte. Por isso ficam. E com eles ficam os padres e as freiras que os assistem. Escolhem dar a vida por aquele frágil rebanho e ficar no meio da violência com que Israel ameaça aqueles que não “evacuarem”.

7.A situação em geral em Gaza é desesperada. Mesmo descontando toda a publicidade enganosa do Hamas, há milhares de civis naquela língua de terra, presos entre os terroristas do Hamas e o exército de Israel. Morrem de fome, de sede, de bombas. E para quê? Por um Israel “from the river to the sea”? Há muito que a questão deixou de ser militar e passou a ser política, como afirmaram mais de 1200 oficiais israelitas em carta aberta. E no meio de toda esta geopolítica, dos terroristas do Hamas e dos militares israelitas, há aquelas centenas de almas, presas em duas pequenas igrejas, a quem nada mais vale que não seja a caridade dos padres e freiras e a esperança do milagre da Paz.

Jurista

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