Pedro Neto Monteiro - 27 ago. 06:48
As cadeiras vazias no Ensino Superior
As cadeiras vazias no Ensino Superior
Os relatórios falam em percentagens, em quebras de candidatos, em descidas de colocados. Mas por trás da linguagem técnica ergue-se uma verdade mais profunda. O país começa a perder não apenas estudantes, mas o vínculo essencial que une a juventude ao seu próprio horizonte
Há imagens que se inscrevem mais fundo do que qualquer número. Um anfiteatro deserto, uma sala onde as cadeiras permanecem mudas, um campus em que o silêncio suplanta o rumor da juventude. É isso que significam, no fundo, as onze mil vagas sobrantes no ensino superior português. Não são apenas estatísticas, mas uma paisagem de ausência, uma geografia de destinos por cumprir, um vazio que se alastra ao futuro coletivo.
. A demografia explica a superfície, mas não a essência. O que falta, mais do que corpos em idade de estudar, é a convicção de que este país é digno de ser habitado intelectualmente, de que aqui vale a pena investir anos de vida, sonhos e esperança.
Há uma geração que olha a universidade com uma mistura inquieta de desejo e desencanto. Desejo, porque ainda reconhece no conhecimento uma via de emancipação. Desencanto, porque percebe que essa via, em Portugal, está cheia de obstáculos: alojamentos inatingíveis, bolsas insuficientes, empregos que não correspondem à dignidade prometida por um diploma. E, assim, muitos partem. Outros nem chegam a entrar. E até os que entram, entram já com a sombra persistente da dúvida a habitar-lhe o espírito: valerá a pena?
As vagas vazias são como janelas abertas para o nada. Cada uma corresponde a um jovem que não entrou, a um destino que não se entrelaçou com o nosso. E há nesta ironia uma crueldade silenciosa. O país multiplica portas de acesso, mas esquece-se de construir casas habitáveis atrás dessas portas. Oferece lugares, mas não oferece caminhos.
No fundo, a crise das colocações é a crise da própria ideia de futuro. Portugal habituou-se a pensar que bastava erguer instituições e acumular diplomas para garantir progresso. Mas progresso não é pedra nem papel. Progresso é confiança partilhada, é horizonte comum, é a sensação de que permanecer aqui vale a pena. E quando essa confiança se evapora, nenhuma estatística pode substituí-la.
Escreveu-se muitas vezes que a universidade é o coração pulsante de uma nação. Hoje, esse coração bate mais devagar. Bate com esforço. Bate como quem resiste. Não porque faltem jovens talentosos, mas porque falta ao país a coragem de cuidar deles, de os fixar, de os valorizar.
Talvez devêssemos olhar para cada cadeira vazia como para um espelho. Nela não vemos apenas ausência mas também acusação. Vemos o Estado que não protege, a sociedade que não valoriza, a geração que parte.
E é por isso que este momento não pode ser lido apenas em relatórios técnicos. Precisa de ser escutado como um apelo. Cada estudante perdido é uma história que não acontecerá entre nós. Cada vaga sobrante é uma promessa desperdiçada. Cada silêncio num anfiteatro é um futuro que não soubemos convocar.
As cadeiras não estão vazias por falta de jovens, mas porque o país ainda não aprendeu a sentar-se ao lado deles.