observador.ptObservador - 28 ago. 00:02

A República dos Órfãos

A República dos Órfãos

O desafio não é o de encontrar o próximo salvador. É o de desintoxicar a cultura política portuguesa desta necessidade infantil de proteção e de figuras redentoras.

Em Portugal, a crença cega no Homem Providencial tem sido um vício recorrente da nossa cultura política. Sempre que o país atravessa uma crise ; seja económica, social ou moral , ressurge o desejo quase messiânico por uma figura forte, redentora, que prometa salvar a Pátria dos seus próprios vícios. Esta figura, quase sempre masculina e carismática, é vista como alguém acima dos partidos, acima das instituições e até, por vezes, acima da própria democracia. A ironia é que, ao longo da nossa História Republicana, esta expectativa nunca foi totalmente satisfeita , mas isso não impediu a sua constante repetição.

A transição da Monarquia para a República, em 1910, marca o ponto de ruptura simbólica com o Pai da Nação , o Rei, figura tutelar e sagrada que encarnava a continuidade, a unidade e os afectos do povo. Mas o novo regime não soube ou não quis substituir esta figura simbólica por algo de igual densidade emocional. Pelo contrário: o que se ofereceu em troca foi um sistema partidário instável, muitas vezes caótico, com líderes transitórios e interesses fragmentados. A República prometia representar a vontade popular, mas cedo se tornou refém de facções e jogos de poder internos. O povo, órfão de Rei, passou a procurar no Presidente, no Chefe de Governo ou em qualquer outro político carismático um substituto emocional que nunca chegou a existir.

É neste vazio simbólico que germina a cultura do salvador. Quando os partidos falham, os cidadãos tendem a projectar nos líderes traços que eles próprios sabem que não existem: honestidade incorruptível, visão de futuro, coragem moral. Estes atributos são mais fantasmas de desejo do que realidades observáveis. Salazar é talvez o exemplo mais acabado desta procura nacional por um Pai severo, que impusesse ordem e silêncio em nome de um bem maior. Mas mesmo em democracia, esta pulsão regressiva persiste , veja-se como se exaltam líderes que se apresentam como antissistema, incontornáveis ou incompreendidos, como se fossem vítimas de uma elite que não os deixa governar como deviam.

O problema é que o Homem Providencial raramente provém de fora do sistema. Ele emerge do próprio jogo partidário, mascarado de exceção. Usa os mesmos mecanismos de sempre , o discurso populista, a vitimização, o ataque à imprensa, o apelo ao povo autêntico , para se legitimar. Mas na essência, representa os mesmos interesses que diz combater. Não encarna a Nação, mas sim uma parte dela, distorcida pelo filtro do seu próprio ego e das suas ambições. Em vez de nos unir, fragmenta ainda mais. Em vez de liderar com sentido de Estado, ocupa o espaço público com promessas que não pretende cumprir.

O desafio que se coloca, portanto, não é o de encontrar o próximo salvador. É o de desintoxicar a cultura política portuguesa desta necessidade infantil de proteção e de figuras redentoras. A maturidade democrática exige que deixemos de procurar Pais e passemos a exigir representantes. Que troquemos a fé por responsabilidade, o culto da personalidade pela força das instituições. O país precisa de cidadãos que se recusem a acreditar em milagres.

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