Observador - 28 ago. 00:01
Quando o Hamas fala, o Ocidente amplifica
Quando o Hamas fala, o Ocidente amplifica
De forma acrítica, os media engoliram e regurgitaram as declarações do Hamas. Que, por conveniência editorial, surge mascarado de “autoridades locais”, “fontes médicas” ou “organizações humanitárias".
No passado dia 25 de agosto, voltou a ouvir-se o habitual coro de indignação nas redacções ocidentais. O exército israelita, dizem, cometeu mais um crime hediondo: bombardeou o Hospital Nasser, em Gaza, matando civis e jornalistas. Foi intencional. Foi ilegal. Foi, claro, mais um “crime de guerra”. O guião mantém-se.
A fonte? A de sempre: o “Ministério da Saúde de Gaza”, uma entidade cuja independência é tão fiável como um boletim meteorológico norte-coreano.
De forma acrítica, os media engoliram e regurgitaram as declarações do Hamas. Que, por conveniência editorial, surge mascarado de “autoridades locais”, “fontes médicas” ou “organizações humanitárias no terreno”.
A farsa é conhecida, mas isso nunca impediu uma boa manchete. A história circulou depressa: jornais, televisões, redes sociais e até irresponsáveis com responsabilidades internacionais, como António Guterres, se apressaram a condenar Israel. Há indignações que nunca falham. Guterres tem essa fiabilidade: sempre disponível para condenar Israel, invariavelmente silencioso em relação a tudo o resto.
Os jornalistas no terreno? Os médicos? As “fontes independentes”? Os “civis inocentes”?
Bem, quase todos são palestinianos, todos a operar sob autorização do Hamas. Muitos deles fazem mesmo parte da estrutura do grupo terrorista ou, no mínimo, seguem as suas orientações, por medo ou simpatia.
Alguns são jihadistas, como Jum’a al Najar, Hisham Quweder, Imad al-Shaer, Muhammad Hadaf, Salah Barbakh e Omar Shahada Abu Teim, que ontem se encontravam na ala do hospital que foi atingida. Hoje, segundo consta, estarão a discutir detalhes logísticos com as suas 70 virgens. Multiplicando por seis, são 420 virgens. É um enterro com prémio.
Entretanto, cá fora, a habitual frota de indignados prepara-se para zarpar. Mariana Mortágua ainda deve ir a tempo da contabilidade das 420. Greta Thunberg, a mascote ecológica da culpa woke, também, se encontrar um barco à vela disponível.
Os jornalistas “neutros”?
Há de tudo. Os que simpatizam com o Hamas, os que odeiam Israel e os que simplesmente querem sobreviver. E por isso não fazem perguntas, não investigam, não contradizem. Limita-se a cumprir as regras que o Hamas impõe. Chama-se jornalismo de submissão. O mesmo que seria praticado pelos reivindicados “jornalistas internacionais”, porque também todos eles prezam as suas cabeças em cima dos ombros.
Mas há que esclarecer o detalhe que todos preferiram ignorar: sim, Israel disparou dois tiros de um carro de combate contra um sector específico do hospital. Porquê? Porque naquele sector estavam combatentes do Hamas, exactamente aqueles seis referidos lá atrás. E porque, de uma das janelas, surgiu um objecto tubular. Podia ser uma câmara? Podia.
Mas também podia ser um lança-granadas ou um míssil anticarro. Numa guerra real, os comandantes não esperam pela confirmação balística. É a vida própria e a dos seus homens que está em causa.
É isto que muitos parecem não entender: quando uma parte se instala num hospital, este torna-se imediatamente um alvo legítimo. São as leis da guerra. Leis que o Hamas viola todos os dias e que Israel tenta seguir, mesmo quando isso lhe custa caro. Se houve erro de apreciação da ameaça, o Exército israelita irá investigá-lo. É o que fazem os países civilizados: responsabilizam os seus militares quando necessário, coisa que o Hamas, naturalmente, nunca fará, bem pelo contrário, porque é essa mesma a sua estratégia: usar as regras contra quem as encara com seriedade.
Enquanto isso, a Al Jazeera, propriedade do Emir do Qatar, o maior financiador do Hamas, continua a desempenhar o seu papel: produzir, editar e distribuir a propaganda palestinianista para consumo global. Com sucesso, reconheço. Porque há muita gente disposta a acreditar. Ou interessada em fingir que acredita.
As agências de notícias ocidentais colaboram. Contratam freelancers no terreno, vestem-lhe um colete e mandam-nos para os hospitais. É lá que se sentem seguros, como os jihadistas. Porque será? Afinal, do outro lado, os “genocidas” tendem a não genocidar em certos sítios?
Bem, esses “jornalistas” alimentam-se das fontes locais (Hamas), recebem fotografias, números e declarações alinhadas com a estratégia de Doha.
Alguns dos imensos “jornalistas mortos” eram operacionais do Hamas, bem referenciados: Anas al-Sharif, da Al Jazeera, comandava uma célula de lançadores de foguetes. Hossam Shabat, também da Al Jazeera, pertencia ao braço armado do grupo. Mas isso são detalhes. Irrelevantes para quem já decidiu quem são os bons e os maus.
Sim, Israel está a perder a guerra da propaganda. É um país mais pequeno que o Alentejo, rodeado por inimigos, atacado diariamente, e ainda assim julgado segundo padrões morais que ninguém mais cumpre. Do outro lado, há dinheiro a rodos, uma rede de comunicação global, uma indignação bem financiada. E uma imprensa que continua a achar que a verdade é um detalhe menor, desde que a narrativa sirva.
No fim, o que interessa não é o que aconteceu. É o que parece ter acontecido, sobretudo se for útil para confirmar preconceitos.
O mais preocupante, porém, não é a manipulação dos factos. É o que ela revela sobre o estado moral e político do Ocidente. A facilidade com que jornalistas, diplomatas, activistas e académicos aceitam, ou fingem aceitar, a versão de um grupo terrorista, é o sintoma de um colapso mais profundo. Já não se trata apenas de ignorância. Trata-se de cumplicidade voluntária.
Nos corredores de Bruxelas, nas salas de imprensa, nas universidades e nas ONG da estirpe woke, há hoje uma corrente de pensamento dominante que não procura compreender a realidade, mas sim subvertê-la.
Israel é o pretexto perfeito. Permite que todos os ressentimentos, falências morais e convicções ideológicas mal resolvidas sejam projectadas num bode expiatório conveniente e antigo. Sob o disfarce da falsa compaixão pelos palestinianos, que sofrem às mãos do Hamas, o que se expressa é um ódio visceral à existência de Israel e, mais profundamente, àquilo que Israel representa: uma democracia ocidental, armada, soberana, orgulhosa, e disposta a sobreviver.
E é aí que reside a verdadeira fúria. Israel é tudo aquilo que esta “elite” ocidental já não é. Enquanto os líderes ocidentais pedem desculpa por existir, Israel afirma o seu direito a existir e a defender-se. Enquanto os nossos exércitos se transformam em departamentos de diversidade, Israel mantém uma doutrina militar centrada na eficácia. Enquanto as nossas fronteiras são matéria de debate académico, Israel protege as suas, com clareza e consequência.
Por isso, o problema não é apenas Israel. É o desconforto que Israel provoca. O desconforto de um Estado que não pede licença à ONU para se defender. Que não espera pela aprovação de comités, relatórios ou resoluções. Que não abdica do direito à vida, por medo de ser mal interpretado.
Essa independência, que noutros tempos seria celebrada, é hoje criminalizada. Porque expõe o vazio de quem a perdeu. Israel tornou-se o espelho onde o Ocidente evita olhar-se.
Entretanto, o Qatar, a monarquia absolutista que financia o Hamas, continua a comprar respeitabilidade internacional a preço de saldo. Organiza cimeiras sobre liberdade de imprensa, enquanto mantém jornalistas presos. Promove debates sobre “inclusão” enquanto persegue homossexuais. E distribui generosos apoios a departamentos universitários que, depois, escrevem papers académicos a explicar que o Hamas é uma “expressão legítima de resistência”.
É esse o jogo. Um jogo cínico, cobarde e intelectualmente desonesto. Jogado por líderes que há muito desistiram de defender os valores que juraram proteger. E por jornalistas que deixaram de procurar a verdade, porque a verdade já não é uma prioridade, mas um incómodo.
No fim, o que resta? Um pequeno país, com oito milhões de habitantes, que insiste em não desaparecer. Rodeado por inimigos, vilificado por diplomatas, traído por aliados, difamado pela imprensa. Israel é hoje o único Estado ocidental que, estando na linha da frente do jihadismo islâmico, actua como se quisesse vencer.
E isso é, para muitos, imperdoável.