www.publico.ptwww.publico.pt - 28 ago. 05:20

Cartas ao director

Cartas ao director

Incêndios

Os incêndios são apenas um acto do drama que está em cena em Portugal. É sobre este acto que neste momento incidem os holofotes da televisão e dos jornais. Mas há outros actos do mesmo drama que voltarão ao palco logo que a chuva regresse. É o caso do descalabro dos serviços de saúde, do falhanço do sistema educativo, da falência da justiça, da crise da habitação, etc.

Que concluir? Que o Estado está a falhar nas suas funções fundamentais: segurança, saúde, educação, justiça. E há explicações para isto. Foi no que deu: a) a política passar a ser uma luta pelo poder em vez de uma nobre actividade ao serviço do país; b) o excesso de debate, de comentário, e de análise ter substituído ou atrofiado a acção; c) o governo ter passado a governar para os telejornais, as rádios e os jornais; c) a partidarização das administrações públicas ter substituído o recrutamento por mérito.

Os incêndios são consequência desta incapacidade e, quem sabe, desta incompetência que se instalaram na máquina do Estado. Só assim se compreende que, perante o evidente e comprovado falhanço do dispositivo concebido e montado para prevenir e combater os incêndios, ninguém tenha aparecido a questionar a valia deste gigantesco, oneroso e centralizado dispositivo, bem como a bondade da estratégia que lhe deu origem, propondo a sua substituição por um sistema descentralizado, ágil, de resposta célere, cujo dispositivo operacional fundamental teria a sua base estabelecida em cada freguesia rural. Será porque um sistema destes não gera bons negócios, não cria lugares bem remunerados? Fica a pergunta no ar.

Bernardino Teixeira de Carvalho, Lisboa

Mais e melhor saber histórico para travar o renascimento dos fascismos

Achei muito oportuno e assertivo o texto saído no PÚBLICO assinado pelo arquitecto Paulo Ávila e pelo historiador Manuel Loff, intitulado Direitas extremas: do oportunismo ao fascismo, onde ambos caracterizam com rigor a actual situação política decorrente do ascenso do extremismo de direita em Portugal e no mundo.

Sim, "é da negação da natureza neofascista da extrema-direita do século XXI que depende o sucesso da sua normalização e a sua cooptação para dentro das estruturas formais do poder". Ou seja, fala-se do deliberado "auto-esvaziamento ideológico mascarado de uma agenda sem convicções". No caso português, a estratégia do oportunismo e da ambivalência ideológica salta à vista, e até está a ser bem-sucedida no modo como a governação da AD acolhe com candura (ou ingenuidade... ou estratégia eleitoral... ou pior!) o canto de sereia do perigoso populismo "cheguista". Espantemo-nos, pois: um partido que ainda se denomina social-democrata e um outro que advogava valores democratas-cristãos, e que deveriam estar juntos a defender os pilares do regime criado no pós-25 de Abril, passaram a ser coniventes com o bafio de uma agenda saudosista, xenófoba, fomentadora do ódio mais primário, populista, anti-humanista, anticristã, anticonstitucional e, na sua essência, antidemocrática!

O que se passa em Portugal, e noutras latitudes, repete a cartilha de movimentos que, nos anos 20 e 30 do século passado (foi ontem e a história repete-se...), chegaram ao poder para instituir ditaduras autocráticas ferozes e belicistas, justamente pela estratégia de, com fortes campanhas assentes na mentira e usando e abusando da ignorância de muitos, usam o oportunismo a que Theodor Adorno chamou "manipulação colectiva" e "psicologia grupal de protesto", e António Gramsci "alienação generalizada", para atingir os seus fins.

Mas o que é que muitos portugueses sabem da sua própria história recente? Qualquer inquérito científico mostra uma quebra nos níveis de conhecimento dos mais jovens, aqueles que mais sujeitos são às manipulações e à mentira negacionista. Por isso, pergunto: ninguém questiona os líderes do partido filofascista nacional, sempre prestes a vituperar o "sistema" (a democracia), sobre o que pensam verdadeiramente do "sistema" que vigorava antes de 1974 e se chamou Estado Novo, o salazarismo? Ao menos, outros partidos residuais, mas não menos violentos, da mesma direita extrema, assumem-no às claras: nostálgicos que são, desejam o seu retorno.

Se a análise do artigo citado de Loff e Ávila é muito pertinente no que respeita à "natureza cínica do fascismo" e ao seu efeito de "bola de neve" junto de eleitorados vulneráveis, pondo trabalhadores contra trabalhadores e explorados contra explorados, que dizer da elementar falta de saberes históricos que justificam (em parte) o seu presente sucesso? Pois é no reforço do ensino da História, a nível escolar, e na promoção do estudo e pesquisa da História-Ciência, que reside um dos caminhos para "medir a dimensão do perigo" e alertar as novas gerações para as reais ameaças que se perfilam no horizonte.

Vítor Serrão, Santarém

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