publico@publico.pt - 28 ago. 17:29
Luís Lucas, adeus!
Luís Lucas, adeus!
Luís Lucas morreu no sábado, aos 73 anos. Actor e encenador, Luis Miguel Cintra despede-se do amigo. “Nunca com a morte de ninguém senti tanta vontade de contar o que vivemos.”
Foi sim, como tanta gente tem dito, foi uma pessoa que viveu de uma maneira diferente, única, inventando o passar do tempo como ninguém, como se já soubesse que a vida que gostaríamos de ter não ia durar o tempo suficiente para conhecer tudo, sem qualquer proibição nem caminho traçado. Soube como ninguém, guiado pelo desejo e pela curiosidade, prezar o que lhe foi acontecendo, alheio a hierarquias ou a padrões de comportamento e não desprezando coisa nenhuma, nem pessoa, nem lugar. E foi de verdade, com extremo pudor e sempre em busca de um carinho que fosse universal, e de uma lealdade férrea que um dia havia de ser natural em toda a gente, que construiu tudo o que foi a sua vida, sem nenhuma violência.
Foi um dos poucos de nós que nunca trabalhou para a fama, só foi actor para conhecer por dentro tudo o que de único tem cada um de nós, e porque o que se vive no teatro e no cinema é mesmo para viver mais, viver sempre e, como se fosse por acaso, não parássemos de trabalhar sem que o vaso da vida no-lo impedisse. Mas não faz mal. É cada um de nós que constrói o seu próprio vaso. A vida do Luís só parou porque o seu vaso não lhe deu mais espaço e ele transbordou.
Vou eu também, como aposto que acontecerá a todos com quem ele se cruzou ou que ele conheceu, sentir que ficou um vazio no seu lugar. Não só porque já não está lá, mas porque ninguém se adaptaria à forma do espaço que ele deixou. E porque o lugar dele era todo o mundo. Foi convivendo com o mundo através de tudo o que viveu que nos deixou um vazio que já nem sei se é vida. Nós que ainda não acabámos, mas a quem falta pouco para o coração parar de bater, teremos menos alegria para além daquela pouca que o fim da vida nos dá. Faltará a sua companhia. Quem mais saberá viver aquela fragilidade, sem se defender da ameaça que, nos nossos dias, anula a liberdade de cada um e nos formata como robôs?
Fez parte da minha vida toda. Devo-lhe quase tudo o que aprendi a viver. Sinto-me agora amputado. Chegámos há poucos dias a combinar um jantarito, que não chegou a haver. Eu temia que assim acontecesse. Mais uma vez me distraí. Mas já percebi que me custará caro ter lutado contra a morte, em vez de, como o Luís, me ter convencido do que sempre ele me quis ensinar: não é por viver a lutar por mais que se vive melhor.
Não foi preciso mais tempo para além dos bocados de tempo que vivemos juntos. Com ele, descobri muito de como se pode amar. Passaram três dias desde que morreu e são tantas as memórias que me enchem o coração…
Conto um bocadinho, agora que já ele não corre risco nenhum: vivíamos os dois na Travessa da Portuguesa, esquina com o elevador da Bica. Foi aí que nos acordou um telefonema do meu primo Paulo, na madrugada do 25 de Abril. Logo ele, sem ligar à minha obediência tonta, sem querer saber do pedido do MFA para que não saíssemos de casa, vestiu a roupa que estava à mão e saltou para a rua, para o Largo do Carmo. Pouco tempo depois, voltava ele para me vir buscar. “Que estás a fazer metido em casa? Vamos para o Carmo.” Foi assim. Tão simples como isto. Passou algum tempo, cada um de nós viveu separado do outro, mas deixei-lhe a nossa casa para viver. Soube depois que a casa tinha andado de mão em mão. E muito tempo depois, o nosso senhorio telefonou-me um dia, pedindo-me que levasse dali o que lá tinha ficado: uma G3! Não sei nem importa quem lá a deixou, mas sei que foi o Lucas que teve coragem para conseguir que desaparecesse noite dentro no fundo do mar. Uma arma é de metal, resiste ao tempo. Ficou onde, pelo menos, Deus nos estava a ver. E porque não hei-de agora contá-lo, Luís?
Não tem nada a ver com teatros, mas tem a ver com a paixão com que fez o Dina e Django com a Solveig, esse lindo filme, e tanta coisa menos espectacular. Tem a ver com a paixão com que foi capaz de amar tão bem tanta gente, no fundo, assumindo o peso de todos os maus bocados do mundo.
Nunca com a morte de ninguém senti tanta vontade de contar o que vivemos. Perdoem-me, mas não consigo guardar para mim tanto desgosto e não contar pelo menos um ou outro pedaço da vida que vivemos os dois.