sol.sapo.ptmagalhaes.afonso@newsplex.pt - 28 ago. 22:03

Fogo posto na dignidade

Fogo posto na dignidade

Reforçar os serviços de cuidados domiciliários não é apenas uma opção sensata — é um imperativo ético

Na semana passada, um incêndio devastador consumiu não apenas parte de um edifício, mas vidas, memórias e a dignidade de quem ali residia. No lar da Santa Casa da Misericórdia de Mirandela, seis idosos perderam a vida e mais de duas dezenas ficaram feridos — alguns em estado crítico. Tudo indica que o incêndio terá tido origem num colchão anti-escaras.

A dor pelas vidas que se perderam é imensa e inolvidável. Junto a essa dor, surge a necessidade de entender como tudo aconteceu: o silêncio do alarme de incêndio que não soou, os extintores que falharam quando mais eram necessários, e a escassez de profissionais que, mesmo em número insuficiente, enfrentaram o impossível. Cada falha foi, não apenas uma falha técnica, mas uma ausência que se fez sentir na forma mais dolorosa: a perda de vidas.

Evacuar idosos, muitos com mobilidade reduzida, mais do que uma corrida contra o tempo é um pesadelo logístico. Cada segundo conta. Quando os sistemas falham, o preço é pago através do desaparecimento de vidas frágeis, silenciosas e indefesas.

Esta tragédia deve levar-nos a dar um passo atrás e reflectir sobre o sistema que impera em Portugal. O incêndio no lar de Mirandela foi um grito de alerta para as fissuras profundas na nossa rede de cuidados: instituições subfinanciadas, estruturas sobrecarregadas, profissionais exaustos e equipamentos obsoletos. Mais do que discutir normas técnicas ou responsabilidades pontuais, este momento exige uma reflexão séria e corajosa sobre o modelo adoptado por Portugal, que carece de uma transformação.

Sabemos que a procura por lares ultrapassa largamente a oferta existente. Com o envelhecimento acelerado da população, essa escassez tornar-se-á ainda mais dramática. É imperativo garantir que os nossos seniores são cuidados com respeito, afecto e dignidade. Insistir num modelo maioritariamente centrado em lares não só é insuficiente como, por vezes, perigoso.

Apesar das parcerias com o sector privado, que têm sido valiosas, o número de vagas continua a escassear e os cuidados tardam em chegar. É urgente diversificar. Portugal precisa de uma rede de cuidados mais ampla, mais humana e mais próxima. Uma rede que priorize o desejo que muitos idosos têm de envelhecer em casa — no espaço onde construíram memórias e criaram laços familiares.

. Com assistência médica adequada, adaptações nas habitações e apoio contínuo, é possível garantir que muitos idosos permaneçam nos seus lares com segurança e qualidade de vida. As autarquias devem assumir um papel activo, promovendo programas de manutenção e adaptação das residências, assegurando que ninguém é forçado a partir para uma instituição por falta de alternativas.

É também crucial valorizar os cuidadores informais — milhares de pessoas que, por amor ou necessidade, deixam empregos, adiam sonhos, enfrentam desafios imensos para cuidar de quem depende delas. Muitas vezes, fazem-no sem qualquer apoio financeiro ou psicológico. São pilares invisíveis de um sistema que precisa de os apoiar cada vez mais.  

A habitação colaborativa entre idosos — ou entre gerações — pode ser uma resposta luminosa ao isolamento e à solidão. Projectos-piloto já testados em Portugal e noutros países europeus mostram que a partilha de espaços entre pessoas com perfis complementares cria comunidades vivas, onde há entreajuda, autonomia e bem-estar emocional. Também por isso, a habitação colaborativa deve tornar-se numa verdadeira aposta. A tragédia de Mirandela não pode ser apenas mais uma manchete que se apaga com o tempo. Tem de ser uma mudança de capítulo, um ponto de viragem. Se queremos envelhecer com dignidade, temos de garantir que os nossos idosos não são apenas números numa lista de espera, mas pessoas com histórias, direitos e necessidades que exigem uma resposta urgente, humana e adequada.

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