expresso.ptHugo Filipe Coelho - 28 ago. 07:00

Dicionário para uma República Digital

Dicionário para uma República Digital

Tal como a linguagem está a mudar, também as ideias políticas correm para não ficar para trás. Muitas das ideologias que orientam a nosso pensamento precisam de ser reimaginadas ou reformadas

Deve ter sido um trabalho difícil, o de cronista, no final de 1700s. O mundo estava prestes a entrar num período de agitação política, e de transformação económica, social e tecnológica. E não havia palavras para descrever o que se ia passar.

No primeiro páragrafo de A Era das Revoluções, o historiador britânico Eric Hobsbawm enumerou os termos (ingleses) que ainda não tinham sido inventados. “São palavras como industry, industrialist, factory, middle class, working class, capitalism e socialism. Incluem aristocracy bem como railway, liberal e conservative enquanto termos políticos, nationality, scientist e engineer, proletariat e (economic) crisis,” escreveu.

É tentador fazer um paralelo com o nosso tempo. Em velocidade e amplitude, a revolução digital não fica a dever muito às revoluções industrial e liberal do século XIX – no seu início, pelo menos. E, na ânsia de a descrever e compreender, estamos, freneticamente, a aumentar o nosso vocabulário.

Palavras como web, blockchain, cloud, metaverse e inteligência artificial generativa são invenções modernas. . Há novos conceitos e ideias que descrevem melhor o presente e prescrevem a mudança. Exemplos disso são Capitalismo da Vigilância, Techno-libertarianismo e Autoritarismo Digital. Republicanismo Digital, um termo cunhado por Daniel Susskind em 2022, é outro.

“República”, neste caso, não é o mero contrário de monarquia. Susskind define-a no sentido romano ou clássico como um sistema concebido para impedir que o poder – político, económico ou tecnológico – se concentre nas mãos de uns poucos. Essa República é o regime de contrapesos e equilíbrios. Protege e permite a liberdade individual, mas não deixa os indivíduos entregues a si próprios a lutar por ela. Encaixar o Republicanismo Digital no espectro esquerda–direita seria anacrónico. Mas, como alternativa à ideologia tecnoutópica e libertária em voga, o termo tem uma certa modernidade. Usei-o no título, pois esta coluna partilha muito dessa forma de pensar.

Nos próximos artigos, proponho-me discutir como a inovação tecnológica desafia os pressupostos da nossa política e políticas públicas. Há um norte, mas não um itinerário, porque o ritmo e a complexidade da mudança não permitem desenha-lo de antemão.

Vivemos num mundo onde as pessoas, cada vez mais, comunicam, socializam e criam laços em espaços virtuais. As diferentes formas de conteúdo já não dependem de um autor (humano). Programas de inteligência artificial escrevem texto, geram imagens e compõem música, entre outros. A automação está a reavivar velhas questões sobre o trabalho, o seu propósito e papel na distribuição da riqueza. Armadas com dados sobre tudo, as plataformas digitais classificam-nos, antecipam as nossas necessidades, e influenciam as nossos quereres, pre-determinando quem compra o quê de quem. Na política, a indignação e a desinformação são os instrumentos de persuasão. O Estado-Nação compete pelo poder com empresas globais e algoritmos sem consciência nem responsabilidade. Ao mesmo tempo, interrogamo-nos sobre o que significa ser humano, como funciona o nosso cérebro, e o que é a consciência; e se ser dotados desta nos torna especiais e justifica um estatuto privilegiado. As ideias de racionalidade, autodeterminação e moralidade, como as entendemos, estão sob revisão.

É importante dizer de antemão que as minhas reflexões não têm como pressuposto, nem dependem de qualquer previsão sobre avanços tecnológicos, a sua velocidade e alcance. Não tenho competência alguma para opiniar sobre estimativas – que abundam – sobre quando teremos num carro sem condutor, um computador superinteligente, ou quando resolveremos os enigmas no caminho da computação quântica, etc. Mas não posso deixar de notar que a tecnologia tem evoluído de forma exponencial (mesmo quando isso não aparece nos números do PIB); e que a nossa incapacidade e, em alguns casos, relutância em fazer dela uso é um dos fatores que tem moderado o seu impacto. Reconhecer isto não é deslumbramento nem atração pelo abismo ou pela distopia; é, tão só, um ato vigilância intelectual.

Entre escolhas e erros, a minha carreira foi dedicada à política e às políticas públicas, em contextos e circunstâncias diversos. Não consigo evitar sentir que essas minhas experiências hoje valem menos do que esperaria. Refletir e escrever sobre a política na era digital é, em parte, um tentativa de contrariar isso. Um desafio que me fez pensar nos cronistas de 1700s, de quem se esperava que contassem a história de uma era que estava apenas a começar.

2052 é uma coluna sobre política, economia e cultura na era digital.

Referências e sugestões de leitura:
  • Era das Revoluções, Eric Hobsbawm (link)
  • Digital Republic, Daniel Susskind (link)
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