publico@publico.pt - 28 ago. 08:37
O “olhar cansado” é uma trend: maquilhamos os olhos ou o cansaço?
O “olhar cansado” é uma trend: maquilhamos os olhos ou o cansaço?
Num mundo que faz vénias à produtividade, demasiado focado no desempenho e no sucesso, mostrarmo-nos assumidamente cansados pode ser uma forma de revolta, uma recusa às máscaras da energia constante.
De tempos a tempos surgem tendências estéticas que, à primeira vista, podem parecer bizarras. A mais recente chama-se “olhar cansado” e já chegou às redes sociais com tutoriais de maquilhagem que ensinam a recriar olheiras, pálpebras pesadas e uma expressão entre o exausto e o melancólico.
O que até há pouco tempo se tentava disfarçar com corretores de olheiras e cremes revitalizantes, passou agora a ser desejável. Mas o que explica esta inversão de valores e comportamentos por trás deste fenómeno? A arte nunca é neutra, reflete sempre quem somos e como vivemos enquanto sociedade.
A geração que mais explora estas abordagens é a mesma que cresceu sob pressão académica, precariedade laboral e exaustão digital. Neste contexto, a exibição do “ar cansado” pode ser tanto um statement estético como um pedido de reconhecimento: “Estamos exaustos, e isso também faz parte de quem somos.” Mas será que devia fazer?
O “olhar cansado” é uma tendência que promove a aceitação da nossa imagem real e cansada ou, pelo contrário, acaba por desvalorizar o cansaço?
A psicologia ajuda-nos a compreender esta tendência de várias maneiras. Em primeiro lugar, a valorização do cansaço liga-se a uma romantização do sofrimento que, apesar de antiga, ganhou novas formas nas redes sociais. O maior risco da normalização da exaustão acontece quando este estado passa a ser uma identidade em vez de um sinal de alerta. Por outro lado, pode ser também um mecanismo de pertença, uma forma de encontrar experiências partilhadas, ou seja, ao aderir há a sensação de que se faz parte de um grupo e se é aceite. Tal como acontece noutras tendências, o que parece superficial revela muito sobre as necessidades emocionais de quem adere.
Este artigo surge na sequência de uma consulta com uma mulher com PHDA, com sintomas tanto de desatenção como de hiperatividade, que, de forma muito vulnerável e corajosa, partilhava comigo a frustração de viver num ciclo quase permanente de exaustão e burnout. Um tema recorrente nas consultas, com muitos outros pacientes. Já não se trata “apenas” dos sintomas das perturbações: já não é sobre a dificuldade em gerir o sono ou os estímulos em excesso na PHDA, não é a sobrecarga e a ruminação exaustiva da ansiedade, não é a apatia e o desinteresse de um quadro depressivo, é também a pressão social constante de ter de parecer uma pessoa funcional, bem-humorada, divertida, capaz de tudo, quase ao nível de um super-herói. E onde ficam, afinal, os seres humanos?
E aqui surge o paradoxo central: o “olhar cansado” é uma tendência que promove a aceitação da nossa imagem real e cansada ou, pelo contrário, acaba por desvalorizar o cansaço? A palavra “maquilhar” remete tanto para o encobrir como para o realçar, tanto para a camuflagem como para a expressão.
Esta ambiguidade ajuda a explicar o fascínio pela trend, porque nos coloca perante uma dúvida essencial: estamos a dar visibilidade à nossa vulnerabilidade ou apenas a transformá-la em objeto de consumo, ignorando o seu verdadeiro peso? Mais do que julgar, interessa refletir sobre o que esta tendência nos revela. Talvez seja um espelho da nossa necessidade de parar, de acolher as nossas dores emocionais e necessidades físicas, e de desafiar a tirania da performance.
Se banalizamos os sinais de exaustão, corremos o risco de deixar passar quadros clínicos sérios e que precisam de diagnóstico e tratamento. Celebrar o “ar cansado” pode ser um grito expressivo, mas não deve ser confundido com um estilo de vida. É importante separar o que é expressão artística do que é sintoma. Se a exaustão está sempre presente, se o corpo e a mente pedem descanso e esse descanso nunca chega, talvez seja necessário olhar para dentro e procurar ajuda. No fundo, esta trend diz-nos mais sobre a sociedade do que sobre moda. Aplaudir olheiras maquilhadas é também uma forma de dar palco à hiperprodutividade e às suas consequências, ainda que de forma indireta, mas aceitar o cansaço não pode ser apenas estilizá-lo, temos de aprender a cuidar dele sem o transformar num adereço.