sol.sapo.ptmagalhaes.afonso@newsplex.pt - 28 ago. 18:28

Uma hidra inofensiva

Uma hidra inofensiva

Como escreveu Adrian Vermeule, a Europa tornou-se numa hidra débil: ‘muitas cabeças, mas nenhum poder’

O encontro entre Donald Trump e Vladimir Putin e encontro do presidente americano com os líderes europeus são os momentos inevitáveis desta semana. O primeiro assume uma importância superior, ainda que o sucesso do mesmo seja altamente questionável. O segundo é só mais uma prova de que a Europa é cada vez menos um grande player geopolítico.

Mencionando primeiro, de forma breve, as negociações entre os EUA e a Rússia, é-nos possível tirar algumas ilações. Por um lado, foi bom. Um encontro pessoal entre Trump e Putin transmite a sensação de que se está realmente a tentar fazer algo para tentar desatar o nó cego da Ucrânia – independentemente de este ter sito atado e apertado exaustivamente pelo presidente russo que já demonstrou várias vezes que negociar e cumprir acordos não é, de todo, um dos seus pontos mais fortes. Por isto, o ceticismo continua a ser, inevitavelmente, um imperativo. O avanço real, se algum houve, não é ainda possível de descortinar e o incidente diplomático – que parece ter sido de certa forma ignorado pelos americanos – provocado por Sergey Lavrov, MNE russo, que se apresentou às negociações sobre uma guerra em território ucraniano com uma camisola da União Soviética, deixa ainda mais claro que não se pode contar com a boa-fé do Kremlin. De forma curta, foi um momento diplomático marcante que pode criar um momentum relativamente importante. Infelizmente, parece ter sido pouco mais que isso. E enquanto a comitiva russa provocava na Alasca, a comitiva europeia deu mais um sinal de crescente irrelevância.

A questão da perda de poder da Europa na grande arena da política internacional não é nova. O incontável número de ações, e inações, da União Europeia ao longo principalmente da última década e meia trouxeram-nos a este ponto. E os acontecimentos recentes em Washington são, mais que uma prova disso, o culminar de um processo de degeneração das estruturas de poder comunitárias. Trump, independentemente de valorizar alguns líderes europeus mais que outros, vê a Europa como um peão bastante útil. Nada mais que isso. E a fotografia que se tornou célebre, com os europeus sentados como alunos malcomportados no escritório do diretor da escola, é uma prova clara.

Esta imagem levou Adrian Vermeule, professor de Direito em Harvard, a criar uma metáfora que dificilmente poderia ser mais certeira. «[A Europa] perdeu o vigor e a criatividade de um continente de Estados descentralizados e verdadeiramente soberanos», escreveu Vermeule na rede social X, «mas sem adquirir a unidade e a força de um governo com um líder único». Estas circunstâncias, defende o professor, fazem da Europa uma «hidra débil». Ou seja, «muitas cabeças, mas nenhum poder». Assim, a Europa tem o pior dos dois mundos – um aparelho cada vez maior, mais burocrático e com o poder mais ou menos concentrado em poucas mãos, mas não colhe os frutos que uma grande comunidade política de liderança homogénea consegue produzir. Com isto, a União Europeia escapa a uma das grandes lições da teoria política clássica que nos diz que, como escreveu Niall Ferguson no seu livro The Square and the Tower, «quanto maior for uma entidade política, mais poder se concentraria nas mãos de poucos». 

O poder até está relativamente concentrado e foi-se concentrando cada vez mais com as sucessivas vagas de aprofundamento e integração – as palavras preferidas de Bruxelas – mesmo que a UE se faça representar sempre como uma aliança de vários líderes nacionais. O problema é que o poder, pelo menos a nível internacional, é cada vez menor, deixando a União Europeia reduzida a uma hidra que, mais que débil, é inofensiva.

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