rr.ptOpinião de José Luís Ramos Pinheiro - 28 ago. 21:32

Diferente, mas o verão continua quente

Diferente, mas o verão continua quente

Há cinquenta anos, vivia-se o Verão quente. A temperatura fervia. Não por causa da tragédia dos incêndios nem das alterações climáticas, mas pela profunda transformação do ecossistema político português.

Em 1975, era o clima político que aquecia e dividia o país. Portugal lutava pela liberdade.

A extrema-esquerda não se contentara com a queda do regime anterior. Desejava um regime à sua medida: uma, assim chamada, ‘democracia popular’, sem as liberdades, tidas como ‘burguesas’, que permitissem aos seus adversários a ousadia (e a liberdade...) de os contrariar.

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As eleições de Abril de 1975 para a Assembleia Constituinte tinham sido uma deceção para a extrema-esquerda portuguesa: haviam eleito um único deputado. Seria conveniente que ‘as eleições burguesas’ não se repetissem.

Já o partido comunista português tudo fazia para transformar Portugal na ‘Cuba’ do ocidente, à sombra da União Soviética que os comunistas portugueses achavam ser, pelo menos naquela altura, o verdadeiro sol da terra.

Kissinger, o secretário de Estado norte-americano, desistira e dava Portugal como perdido. Convencera-se que uma Cuba neste ponto da europa, acabaria até por funcionar como uma espécie de vacina para o ocidente.

Apesar das suas históricas diferenças, extrema – esquerda e PCP não estavam interessados numa democracia ocidental. Juntos ou cada um por si, tudo fizeram para o impedir. Acompanhados por diferentes militares do Movimento das Forças Armadas, procuraram acelerar as reformas económicas: se controlassem a economia, melhor dominariam a política.

As nacionalizações e as expropriações eram os expoentes dessa política. O controle da informação seria a cereja em cima do bolo. Para isso foi necessário varrer das Redações muitos daqueles que não se reviam na extrema-esquerda e no partido comunista, dando origem a saneamentos políticos generalizados. Saneamentos que privilegiavam jornalistas considerados próximos do PS e dos partidos à sua direita.

Ainda longe do Nobel, José Saramago distinguiu-se nesse movimento saneador a bordo do Diário de Notícias, que acabaria com a suspensão de 24 jornalistas, exatamente há 50 anos - em agosto de 1975.

O jornal República, considerado perigosamente afeto ao PS, foi tomado pela extrema-esquerda que expulsou a direção de Raul Rego, levando-o depois a fundar o jornal a Luta.

A Rádio Renascença não escapou ao furor revolucionário. Não tendo sido nacionalizada pelo receio de afrontar a Igreja, viabilizou-se a sua ocupação. Alguns trabalhadores, impulsionados pelas forças mais extremistas (civis e militares) da Revolução, ocuparam a Renascença e passaram a difundir programação e informação de sentido único. Isto é, informação monolítica, sem independência nem pluralismo.

Outros trabalhadores da Renascença chegaram mesmo a ser presos pelo COPCON – Comando Operacional do Continente. Na altura, havia mandados de detenção, assinados em branco, prontos a utilizar contra os chamados ‘inimigos da Revolução’. Fossem ou não culpados de coisa alguma. E normalmente, não eram.

Perante a prisão arbitrária de trabalhadores da Renascença, o Cardeal-Patriarca de Lisboa deslocou-se pessoalmente ao COPCON, chefiado por Otelo Saraiva de Carvalho.

Aconselhado a retirar-se das instalações militares, D. António Ribeiro não cedeu. Só abandonaria o local, horas mais tarde, levando consigo os dois trabalhadores da Renascença.

O ‘caso Renascença’ foi noticiado e acompanhado pela imprensa internacional. E subiu de tom, em junho de 1975, quando uma manifestação da extrema-esquerda foi convocada, para o exterior do Patriarcado de Lisboa. Exigia-se que a Igreja capitulasse e desistisse da Renascença.

Mas a Igreja não estava pelos ajustes.

Muitos dos párocos de Lisboa convocaram uma contramanifestação de apoio ao Patriarcado. Agredidos por uma chuva de pedras, centenas de apoiantes da Igreja acabaram refugiados no interior do Patriarcado, entre eles, algumas dezenas de feridos.

A Conferência Episcopal portuguesa decide então convocar uma série de manifestações em diferentes cidades do centro e norte do país. Manifestações para defender a Renascença, lutar pela liberdade de expressão e reafirmar a liberdade religiosa.

Alguns bispos diocesanos juntaram-se às manifestações que atraíram também todos aqueles que se recusavam a aceitar a imposição da ditadura de uma minoria de extrema-esquerda, civil e militar.

Os mais radicais queriam ver a Igreja afastada da vida pública, remetendo-a ao culto, no interior das suas igrejas. Retirar a Renascença à Igreja portuguesa fazia parte do plano.

Regressavam assim, em 1975, as memórias da Primeira República que fizera da perseguição à Igreja um dos seus grandes cavalos de batalha, chegando ao ponto de o Estado ter a última palavra nas nomeações pastorais, quase equiparando os sacerdotes a uma espécie de funcionários públicos.

Para além do então PPD e do CDS, a esquerda democrática, com Mário Soares à cabeça, distinguiu-se nesta resistência ativa que encontrou no chamado grupo dos Nove, em que pontificavam militares como Melo Antunes ou Vasco Lourenço, um aliado essencial para evitar a deriva esquerdista.

A ocupação da Renascença duraria todo o Verão quente - só terminou em novembro de 1975. Mário Soares e Almeida Santos terão sido cruciais para convencer o Conselho da Revolução a dinamitar os emissores da Buraca que emitiam para a Grande Lisboa.

Nessa altura, já os emissores da Renascença do norte do país emitiam com normalidade, uma vez que a maioria dos trabalhadores se dissociara da ocupação, protagonizada por dezanove colegas de Lisboa.

Pouco depois, dar-se-ia o 25 de novembro que restaurou o processo iniciado em 25 de abril e permitiu consolidar a evolução democrática.

Cinquenta anos depois, transformaram-se as sociedades, as democracias mudaram e as formas de comunicação também.

Haverá coisas melhores e outras piores.

Não mudou, porém, a necessidade de pensar com independência e credibilidade. E de o fazer em liberdade, como forma de procurar a verdade.

Sem desistência nem resignação, quaisquer que sejam as marés – desde a mentalidade woke, imposta pela esquerda caviar, até aos novos radicalismos de direita, em que alguns nos pretendem entrincheirar.

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