Observador - 29 ago. 00:21
O Ensino Superior ainda vale a pena?
O Ensino Superior ainda vale a pena?
O ensino superior português tem dois enormes desafios pela frente – um, assegurar a atualização e modernização na era da IA; outro, desenvolver um processo de internacionalização eficaz.
A vida e a sociedade têm ciclos. Um dos ciclos mais bonitos é o início de um novo ano académico nas escolas e universidades, momento de recomeço para alguns, e de início de uma extraordinária aventura para outros. Esta semana tive o prazer e a honra de dar as boas-vindas a 1200 novos alunos à Católica Lisbon School of Business and Economics. 800 destes são novos alunos de Mestrado, dos quais 75% são internacionais oriundos de mais de 50 países. 400 são novos alunos de licenciatura, dos quais metade já inscritos na licenciatura internacional em Administração de Empresas ou em Economia, toda ministrada em inglês, e muitos deles também internacionais. Portanto, mais de metade dos novos alunos são internacionais, que vêm viver para Lisboa durante vários anos, comprando um serviço premium que é a educação superior e ficando para sempre membros de uma comunidade de alumni da CATÓLICA-LISBON, que nasceu em Portugal, mas é hoje uma marca mundial de referência.
O exemplo da CATÓLICA-LISBON não é único e as escolas de gestão portuguesas têm-se diferenciado pela sua capacidade de atrair e reter alunos internacionais, competindo com as melhores escolas de gestão do mundo. Esse caminho tem também vindo a ser feito em outras áreas científicas, em particular pela Universidade Católica que consegue atrair alunos internacionais num número crescente de áreas e cursos.
Com o recente anúncio dos resultados das colocações de 1.ª fase no concurso nacional de acesso às Universidades Públicas, muito se tem falado sobre a quebra de 16% do número de candidatos para menos de 50,000, bem como a quebra de 12% no número de colocados para cerca de 44,000 e, por fim, o enorme aumento das vagas sobrantes de 5,000 para mais de 11,500. Isto evidência uma sobre-capacidade do sistema de ensino público em mais de 10% e uma enorme dificuldade para as instituições politécnicas do interior do país em preencherem as suas vagas. A situação demográfica nacional não permite antecipar um aumento significativo da procura pelo que o sistema terá de se consolidar e/ou internacionalizar, como já aconteceu nas áreas da Economia e Gestão.
Mas será que na era da informação acessível e da inteligência artificial ainda é valioso um curso superior? Parece-me que o mercado de trabalho se vai bifurcar em dois segmentos com forte procura – um é o segmento que envolve trabalho e interação com o mundo natural e com pessoas – artesão, técnicos, construtores, cuidadores, professores, serviços às pessoas, serviços ligados ao turismo – todas estas profissões são de difícil automação e verão uma crescente procura de serviços até pela escassez de oferta de colaboradores qualificados. Já no trabalho ligado com a agricultura, a indústria ou as profissões liberais, as tarefas serão crescentemente automatizadas, em particular na era da inteligência artificial. Muitos posições desaparecerão enquanto outras verão a sua produtividade aumentada pelas novas ferramentas de IA. As competências, conhecimento e sabedoria que desenvolve o ensino superior podem ajudar a que os seus graduados estejam no grupo que vê a sua produtividade aumentada (e consequentemente o seu valor de mercado acrescido) e não no grupo que se arrisca a ficar obsoleto.
Assim, o sistema de ensino superior português tem dois enormes desafios pela frente – um é assegurar a sua atualização e modernização na era da inteligência artificial – para que os seus graduados sejam exímios no uso das novas ferramentas. O outro é desenvolver um processo de internacionalização eficaz que abra à Europa e ao mundo o excelente ensino e investigação académica que se faz em Portugal. Olhando para a relação entre a procura e oferta no sistema público por área temática, há a salientar a sobre-capacidade na área das Engenharias com 2716 vagas sobrantes, Ciências Empresariais com 1781 vagas sobrantes e serviços às Pessoas com 1333 vagas sobrantes, três áreas que representam mais de metade das 11500 vagas sobrantes. Áreas com Informática, Ciências da Vida e Ciências Físicas e Saúde, aparecem logo de seguida, representando mais 2500 vagas. Todas estas são áreas onde existe uma forte procura de alunos no mercado internacional, o que representa uma enorme oportunidade para o sistema universitário português se transforme num setor exportador competitivo, com reforçada qualidade e competências.
Desenvolver este processo exige uma responsabilização acrescida das instituições universitárias para que gerem as suas próprias receitas e invistam em processos de internacionalização nas áreas onde tenham potencial de mercado. Sabendo que se não o fizerem com sucesso terão de adequar a sua oferta ao reduzido mercado nacional e, em alguns casos, realizar profundos processos de reestruturação e consolidação. Para as instituições politécnicas e de regiões periféricas, o desafio é mais profundo pois terão de desenvolver processos de especialização inteligente que as aproxime do tecido empresarial regional e respetivas necessidades de investigação, inovação e formação, em vez de tentarem imitar as estratégias mais generalistas das Universidades Públicas nas grandes cidades.
Em cada novo ciclo que se inicia é altura de pensar nos desafios e oportunidades que o mundo nos apresenta. Para as Universidades e os seus professores, colaboradores e alunos, este é um admirável mundo novo.