Observador - 29 ago. 00:22
Na Liga Portugal sobe quem merece. Na NFL, sobe quem perde
Na Liga Portugal sobe quem merece. Na NFL, sobe quem perde
A Liga Portugal joga-se no relvado. A NFL joga-se numa folha de Excel. A diferença entre competir para subir e alinhar para não cair está no modelo.
O futebol europeu é uma selva. A NFL é um jardim murado.
Num, quem ganha sobe. No outro, quem perde escolhe primeiro. Ambos gritam “meritocracia”, mas usam dicionários diferentes.
A verdadeira questão não é qual desporto é mais justo. É qual é mais livre
Comecemos pela NFL, o colosso do desporto americano. A liga tem um modelo centralizado, controlado, higienizado. Todas as equipas da NFL operam com o mesmo teto salarial — 279 milhões de dólares em 2025 — o que nivela o investimento em jogadores, os direitos televisivos são divididos de forma quase igual e o draft é invertido: os piores ganham acesso aos melhores talentos.
Resultado? A competição é incrivelmente equilibrada. Das 32 equipas da NFL, 28 já chegaram ao Super Bowl (final da competição) pelo menos uma vez. Não há dinastias eternas. Há ciclos.
Na NFL, o sistema protege os fracos e trava os fortes
Parece justo? Sim. Parece livre? Nem tanto.
Os clubes são franchises. Não há subidas nem descidas. Ninguém pode “fundar” uma nova equipa e lutar pelo topo. É como uma monarquia corporativa com regras democráticas internas. Estáveis, lucrativas, mas fechadas.
A NFL é a Suécia dos desportos: igualitária, civilizada, mas com pouca mobilidade espontânea
Agora vamos ao futebol europeu. Aqui reina a anarquia. Qualquer clube pode, em teoria, subir da distrital à Liga dos Campeões. O Leicester foi campeão inglês em 2016 vindo quase da segunda divisão. O FC Porto venceu a Europa com jogadores desconhecidos e um treinador chamado Mourinho.
No futebol europeu, o mercado é brutal. Mas é aberto
Claro que há distorções: os grandes clubes têm orçamentos obscenos, os superagentes manipulam transferências, e a UEFA finge regular com um fair play financeiro que mais protege os ricos do que equilibra o sistema.
Mas não há draft. Não há teto salarial. Não há protecção contra o fracasso. Desces. Ponto.
Segundo a UEFA, em 2023 os 700 principais clubes europeus geraram um total de 26,8 mil milhões de euros em receitas. Na NFL, todos as 32 franchises têm orçamento praticamente igual. Um nivelado por cima, outro nivelado por regulação.
O futebol europeu é um mercado. A NFL é uma república corporativa
Nos EUA, isto é visto como virtude. Na Europa, é inconcebível. As ligas fechadas têm sido sistematicamente rejeitadas (vide a tentativa falhada da Superliga). Há uma liga de valores por trás de cada liga desportiva.
Mas é aqui que a discussão fica interessante. O modelo americano protege a competitividade interna, mas mata a concorrência externa. A MLS (liga americana de futebol) segue o modelo da NFL e está anos-luz atrasada face à Premier League ou La Liga. Porquê? Porque não basta proteção: é preciso aspiração.
Meritocracia não é dar as mesmas hipóteses a todos. É não impedir quem tem mais talento de ir mais longe
E é isso que o futebol oferece melhor que qualquer outro desporto. A desordem produtiva de clubes a subir divisões, miúdos pobres tornados lendas, treinadores autodidactas a bater milionários com diplomas de Harvard.
Queres um exemplo geopolítico? Compare-se o futebol à economia global. A NFL é a China: planificada, controlada, com crescimento interno estável, mas pouca inovação vinda de fora. O futebol europeu é mais como os EUA ou a UE: desigual, caótico, mas onde a liberdade gera estrelas improváveis.
Segundo a Deloitte Football Money League de 2025, os clubes com maior receita em 2023/24 combinaram 44% de receitas comerciais com 38% de transmissões, impulsionados pela sua projecção internacional. Ou seja: onde o mercado manda, o talento rende.
A liberdade de competir é mais poderosa do que o medo de perder
Por isso, a resposta à pergunta “qual o desporto mais meritocrático?” é: depende. Se valorizas igualdade de condições, escolhe a NFL. Se preferes igualdade de oportunidades para ir mais longe, fica com o futebol.
Mas não confundas regulação com justiça. Um sistema que protege o fracasso perpetua a mediania. Um sistema que arrisca o falhanço permite a grandeza.
A meritocracia à americana dá para todos jogarem. A à europeia dá para alguns brilharem.
E entre igualdade garantida e liberdade de vencer, prefiro a segunda. Mesmo que isso implique perder de vez em quando.