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A transformação da paisagem: do estudo à ação

A transformação da paisagem: do estudo à ação

O projeto SCAPEFIRE identificou 23 freguesias onde mais de 75% do território precisa de intervenção para transformar a paisagem e torná-la resiliente ao fogo, entre centenas de alvos prioritários.

Entre 2019 e 2023 coordenei o projeto de investigação SCAPEFIRE, financiado pela FCT através de uma linha especial de apoio à investigação sobre incêndios, criada na sequência dos grandes fogos de 2017. O objetivo do projeto foi criar um modelo de ordenamento do território capaz de tornar a paisagem mais resiliente aos incêndios, mas também mais sustentável. Em termos simples, tratou-se de desenvolver uma ferramenta prática para identificar onde devem ser realizadas intervenções na paisagem e que tipo de ações são mais adequadas em cada local. Esse modelo foi concebido para ser replicável, mas sempre atento às especificidades de cada território.

O projeto foi aplicado à região Centro, com aprofundamento nos municípios como Pampilhosa da Serra e Leiria, bem como áreas intermunicipais como Castanheira de Pêra, Pedrógão Grande, Figueiró dos Vinhos, e as serras da Lousã e do Açor. Os locais prioritários para transformar a paisagem e alcançar os objetivos de resiliência e sustentabilidade na região Centro foram todos identificados e estão disponíveis ao público através da plataforma EPIC WebGIS, desenvolvida no Instituto Superior de Agronomia, pela nossa equipa de investigação em Ordenamento do Território, do LEAF).

Um dos resultados do projeto foi a identificação das freguesias da região Centro com maior necessidade de transformação da paisagem. Foram destacadas 23 freguesias onde mais de 75% do território precisa de intervenção, 208 freguesias com necessidades entre 50% e 75%, e 649 freguesias com valores entre 25% e 50%. Esta informação pode ser de grande utilidade para a administração central, já que permite definir prioridades no financiamento do restauro da paisagem, apoiando em primeiro lugar as freguesias onde a transformação é mais urgente.

Soluções para a transformação

Os resultados do projeto apontaram para várias soluções de transformação da paisagem. Entre elas, destaca-se o aumento da floresta autóctone de folhosas, como os diferentes carvalhos (onde se inclui o sobreiro), bem como outras espécies de valor económico e ecológico, como castanheiros e nogueiras, que também fornecem madeira, frutos e outros produtos.

Também foi proposta a expansão da agricultura em áreas com maior aptidão, o incentivo às pastagens e sistemas agro-silvo-pastoris (como o montado), e uma nova perspetiva sobre os matos, que não devem ser vistos apenas como combustível do fogo, mas também como recursos com valor para a conservação do solo e da água. Sendo todos diferentes, podem fazer parte da sucessão ecológica da vegetação autóctone, com valorização económica, como é o caso do medronheiro, e terem ainda a capacidade de produção de mel e plantas aromáticas.

Outras medidas incluem a recuperação de linhas de água com vegetação ripícola e a criação de matas mistas com predominância de folhosas autóctones ao longo das cumeadas, nas cabeceiras das linhas de água, funcionando como verdadeiros “corta-fogos verdes”.

No conjunto, estas soluções permitem estruturar o território – criando uma rede – de forma a abrandar a progressão dos incêndios e criar condições mais favoráveis ao combate, ao mesmo tempo que melhoram a qualidade da paisagem e do território em que vivemos. Afinal, para quem não sabe, mesmo quem vive nas cidades beneficia diretamente de uma paisagem rural equilibrada. Através da plataforma EPIC WebGIS, qualquer pessoa pode ainda consultar quais as espécies mais adequadas a cada território, facilitando a implementação destas soluções no terreno.

A redução do eucalipto e a replicação da Mata da Margaraça

No entanto, estas soluções — vistas por alguns académicos como utópicas e por outros como o único caminho possível — têm uma implicação prática incontornável: a área de eucalipto tem de diminuir significativamente. Para se ter uma ideia, na região Centro, onde atualmente esta espécie ocupa cerca de 17% da área, o modelo estudado aponta para uma ocupação futura na ordem de 5%. Em contrapartida, a agricultura poderia crescer dos atuais 23% para cerca de 35%, e as folhosas autóctones expandirem-se para cerca de 31% da área atual.

A Mata da Maragaça Selma B. Pena Periferia ardida da Mata da Maragaça, esta semana Selma B. Pena Fotogaleria A Mata da Maragaça Selma B. Pena

A tão falada paisagem em mosaico só pode tornar-se realidade se houver uma mudança efetiva no uso do solo. Para isso, é necessária vontade e coragem política, capazes de enfrentar o status quo e os lóbis instalados.

É preciso também integrar as políticas de defesa contra incêndios com as de restauro da natureza num novo papel estratégico, de desenho da Paisagem aos Planos Diretores Municipais (PDM), e criar uma estrutura de apoio à transformação do território. Essa estrutura poderia incluir equipas técnicas de proximidade para apoiar associações, moradores e juntas de freguesia na transformação da paisagem, bem como uma rede de viveiros locais dedicada à produção de espécies autóctones, aumentando as hipóteses de sucesso das plantações, a coexistirem com práticas de regeneração natural assistida.

Já no caso das áreas dominadas por eucaliptos (e mesmo as acácias e hákeas) seria indispensável uma estrutura financeira e técnica robusta para apoiar a reconversão. Estas espécies não desaparecem com os incêndios: rebentam de toiça (ou proliferam com o fogo – no caso das invasoras), voltando a crescer em pouco tempo. Daqui a oito anos, se nada for feito, o problema será ainda mais grave. Por isso, torna-se urgente investir em métodos eficazes de remoção progressiva dos eucaliptais, https://www.publico.pt/2024/07/27/azul/noticia/eucaliptal-portugues-diagnostico-ma-gestao-abandono-2098887 à escala da paisagem, mas sem provocar a destruição do solo.

Estas soluções — vistas por alguns académicos como utópicas e por outros como o único caminho possível — têm uma implicação prática incontornável: a área de eucalipto tem de diminuir significativamente Selma B. Pena

Como já referido, um dos casos de estudo do projeto SCAPEFIRE foi o município da Pampilhosa da Serra, onde trabalhámos em conjunto com diferentes atores locais. Encontrámos não só vontade de mudar, https://www.publico.pt/2025/02/18/local/noticia/campo-experimental-medronho-cresce-pampilhosa-serra-fim-ganhase-aguardente-caminho-fazse-solo-2122307 mas também uma grande necessidade de saber como fazê-lo no terreno.

Trata-se de um território marcado por uma orografia muito acidentada, onde a agricultura — um dos usos do solo que pode servir de tampão à progressão do fogo — tem pouca margem para se expandir devido à reduzida aptidão dos solos. Os melhores terrenos agrícolas concentram-se nos fundos de vale estreitos e na envolvente das aldeias, onde ainda há alguma agricultura de subsistência. O estudo mostrou, no entanto, que existe aptidão para diferentes espécies de folhosas autóctones, como carvalhos e castanheiros, com o potencial produtivo da castanha determinado no projeto.

A solução mais eficaz para o futuro da Pampilhosa da Serra passará pela expansão destas espécies, replicando em pontos estratégicos do território estruturas semelhantes à “Mata da Margaraça” (localizada no concelho de Arganil). Estas formações florestais permitem desacelerar a progressão do fogo, ao mesmo tempo que contribuem para a conservação do solo, a retenção da água, a manutenção da biodiversidade, o bom funcionamento dos ciclos ecológicos e a criação de nova economia.

Do estudo à ação

A paisagem que hoje temos é indefensável. É preciso mudar. Mas essa transformação não pode recair apenas sobre os ombros do pequeno proprietário, que dificilmente consegue avançar sem apoio técnico e financiamento inicial. O Estado tem, inevitavelmente, de assumir um papel central neste processo.

Os resultados do projeto SCAPEFIRE foram reunidos num livro que divulgámos junto dos ministérios, da administração central e local, de associações e em várias sessões públicas. O estudo está feito: sabemos onde intervir e que ações desenvolver. Fizemos também as contas: a transformação da paisagem não será barata, mas trará retorno ambiental, social e económico. O que falta é claro e urgente — ter uma ação no território consistente e integrada.

A autora escreve de acordo com o Acordo Ortográfico

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