www.publico.ptpublico@publico.pt - 28 ago. 10:59

Os benefícios da leitura

Os benefícios da leitura

A leitura permite-nos compreender melhor o sortido da diversidade humana, enquanto nos mostra que essa diversidade é mais aparência do que substância, mais fruto da circunstância do que da escolha.

O escritor (entre outros ofícios) Leandro Karnal diz-nos que aquilo em que mais trabalha é no processo de transformar a solidão em solitude (conceitos que Karnal emprega de forma personalíssima). Para o autor brasileiro, a solidão é dolorosa, enquanto a solitude é estar sexta-feira em casa à noite, ter convites para sair, mas preferir escutar música, tomar chá ou vinho, ler um livro — e estar feliz com isso.

A leitura é um excelente antídoto contra a solidão. A leitura é uma eficacíssima forma de converter a solidão em solitude.

Permitam-me ser lamechas: comovo-me quando ouço entrevistas de prisioneiros a contar que a leitura os libertou da prisão, porquanto conseguiram passar boa parte da vida com o corpo na prisão, mas o espírito fora dela. Como? Viajando nos livros, vivendo nos livros, nas suas personagens, nos seus idiomas particulares, sonhos, inquietações, interrogações, dilemas, deambulações, ruas, casas, paisagens, enredos. Mais curioso ainda é que muitos não tinham hábitos de leitura antes da reclusão.

As grades dissolvem-se, descrevem muito prisioneiros, deixam de habitar ali, representam mentalmente outros mundos e vivem outras vidas noutros lugares.

Consigo compreendê-los quando me lembro das viagens de comboio em que não vi nada senão o que representava mentalmente pela leitura. Consigo compreendê-los quando evoco a minha experiência numa livraria de um centro comercial, em que estava a flutuar numa prelecção de Borges sobre budismo e o Oriente, e o meu mundo mental não era o mundo físico derredor, mas apenas aquele de que Borges falava, enquanto lia sem sentir que lia, e eis que subitamente um funcionário me diz que tenho de sair, porque fecham à meia-noite. Olho em volta, como se despertasse de um sonho, e a realidade em torno de mim aterra lenta e confusamente, tal qual quando adormeci num autocarro, e o motorista de camisa azul-clara me acordou de um sonho a dizer que tínhamos chegado à última paragem. Também aí, por longos instantes, ao abrir os olhos e piscá-los, não sabia que dia era, que horas eram, em que lugar estava.

A leitura permite mandar o ambiente circundante à fava.

A leitura permite mandar o telemóvel à fava.

A leitura permite até mandar os outros à fava.

A leitura dá-nos autonomia e liberdade: “Tenho aqui estes livros para ler. Sou auto-suficiente. Que delícia nos nervos.”

A leitura melhora-nos o vocabulário, a capacidade de defender ideias, aligeira-nos a ignorância, permite-nos entender melhor o comportamento humano, ver o mundo pelos olhos do Outro, mergulhar no Outro, perceber (perceber não é aderir a) os mais variados pontos de vista. Ou seja: dá-nos poder.

A leitura ajuda-nos a enxergar algo de vital importância para que não nos sintamos solitários, incompreendidos e estranhos: no essencial, os outros são mais parecidos connosco do que as nossas mentes retorcidas pintam.

Estudos atrás de estudos vêm demonstrando as vantagens da leitura no cérebro, incluindo o desenvolvimento de habilidades cognitivas e emocionais, o combate profiláctico à senilidade e uma caterva de coisas (todas elas cerebralmente boas). Ler, garantem os estudos, promove a inteligência, a criatividade e a palavra da moda: a “empatia”. Ler diminui até o batimento cardíaco e a ansiedade. Já o sabemos, pelo menos, desde o Antigo Egipto, em que as bibliotecas eram chamadas “tesouros dos remédios da alma”. Outra inscrição, que, de acordo com alguns historiadores, morava na Biblioteca de Alexandria, e, de acordo com outros historiadores, na biblioteca fundada pelo faraó Ramsés II, anunciava: Lugar de cura da alma. Para outros historiadores, acrescente-se, não há prova da existência de tal placa, sendo ela, porém, uma representação símbolo-síntese muito útil de como eram veneradas as bibliotecas com os melhores livros e o bem que estas faziam ao espírito.

A leitura permite-nos, até, conhecer-nos, abalar as nossas convicções mais fundas, modificar-nos.

Vivemos no tempo em que os textos indicam ao leitor que contêm humor. Vivemos no tempo em que os textos indicam o número de minutos de leitura

Vivemos no tempo da pletora malsã da competição de estímulos audiovisuais ultra-rápidos, em que aquilo que não capta a atenção imediatamente morre à nascença.

Vivemos no tempo em que o estímulo sensorial da imagem e do som é muito mais sedutor do que a exigência de se afastar, se recolher e fechar dentro de um livro, mormente de uma obra de leitura longa e lenta.

Vivemos tempos em que passamos a correr pelas palavras, em que a diversidade vocabular e os encadeamentos vocabulares encantatórios não são valorizados nem procurados.

Vivemos no tempo em que os textos indicam ao leitor que contêm humor.

Vivemos no tempo em que livros são publicados com a introdução de que reflectem os valores da época. (Receio que, em não se travando esse movimento, 99, 99999 % dos textos de outrora exijam uma contextualização.)

Vivemos no tempo dos leitores de sensibilidades.

Vivemos no tempo em que os textos indicam o número de minutos de leitura.

Como tudo isto é tão estúpido e paternal.

E ainda vivemos tempos em que o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990 (que nada tem de “acordo” nem de “ortográfico”) destrói, dia a dia, não apenas a ortografia — com a exibição diária constante de uma grafia turva que adopta o monstruoso “novo acordo” com ubíquas intromissões do “antigo acordo” e ainda com uma terceira componente constituída pelas hipercorrecções abstrusas decorrentes da aplicação do espírito lábil do “novo acordo” —, mas, bem mais grave, a própria ideia de ortografia, fazendo o país regredir séculos.

Apesar de tudo, creio, como Paul Auster, que o livro de ficção sobreviverá, por ser o único lugar do mundo em que dois estranhos se podem encontrar num espaço de absoluta intimidade.

Creio também que a nata da literatura é um mostruário mais completo e explicativo da natureza humana (ou do comportamento humano) do que todos os tratados de psicologia, filosofia, antropologia, sociologia, porque ela nos permite, não apenas compreender, mas sentir, passar pela experiência da alteridade, outrar-nos, fundir-nos noutras cabeças, noutras subjectividades.

Sem a literatura, sem a poesia, as diferentes áreas do saber são um deserto emocional. Explico-me: uma coisa é decifrar e aprender um código, outra coisa é participar emocionalmente nele (e é a isso que a literatura nos concita). Digamos: uma coisa é descrever a mosca, outra é ver o mundo pelos olhos da mosca — ser mosca, no fundo.

Um dos aspectos mais poderosos da criação literária é esta transcender o espaço e o tempo. Harold Bloom, em 1998, numa entrevista à Folha de S. Paulo, garantiu ter informações de pessoas do mundo inteiro (como indonésios, chineses, indianos, mongóis, romenos, argentinos) que viram peças de Shakespeare em diversas línguas e ficaram convictos de que o Bardo os pusera no palco.

A leitura pede recolhimento. A leitura pede concentração absoluta. A leitura como acto de fusão total com o livro pede que examinemos com exactidão o significado inscrito em cada vocábulo. A imersão cabal na leitura pede até, não raro, desenhos, esquemas, mapas. Nabokov respigou meticulosamente toda a informação da Metamorfose e desenhou o monstruoso insecto em que Gregor Samsa se transformara. Somente um profundo amante do livro se lembraria de executar tal tarefa. O autor russo coligiu também, com denodado labor, as informações de Ulisses, de James Joyce, e desenhou um mapa da Dublin apresentada. (Recordemo-nos de que o escritor irlandês havia escrito o livro com o fito de que, caso Dublin desaparecesse da Terra, a cidade pudesse ser reconstruída com base na obra.) Porque é muito diferente ler um livro com as ruas esquematizadas, com as cores e as formas da mobília, com as descrições físicas, os penteados e a indumentária, com a distância entre o escritório e o bar e a quantidade de vezes que se sobem e descem as ruas e se vira à esquerda e à direita, com as relações de parentesco e amizade todas bem definidas (vejam-se as edições de Cem Anos de Solidão com o desenho da árvore genealógica das muitas gerações, dos casamentos, filhos adoptivos e até amantes). Não por acaso, quando relemos, o livro assenta de outra forma em nós. Onde se senta cada um dos elementos da família na sala? E quando jantam, quem está ao lado de quem? Fechamos os olhos e vemos tudo?

Pós-escrito: Houve quem me perguntasse, no espaço público, o que penso sobre a leitura de livros nos telemóveis. Nada tenho contra. Só não conheci ainda quem tenha lido, nessa modalidade, Em busca do Tempo Perdido ou Guerra e Paz. Para terminar, deixo o testemunho de uma amiga que me relatou a sua experiência de deixar de ter Internet em casa durante meses: “Nunca li tanto como nesse período, e sentia que o meu cérebro se expandia como nunca.”

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