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Sem África e Brasil, português não estaria entre as 100 línguas mais faladas no mundo

Sem África e Brasil, português não estaria entre as 100 línguas mais faladas no mundo

É desnecessário o embate entre portugueses e brasileiros em torno da língua portuguesa, estimulado pelas redes sociais que fisgam fascistas. É na sua mistura que está a sua riqueza.

Os artigos da equipa do PÚBLICO Brasil são escritos na variante da língua portuguesa usada no Brasil.

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Graças aos orixás, não somos puros. E a mistura nos faz sedutores, temos lábia, açúcar na língua, fado nos punhos e samba no pé.

A língua portuguesa ganhou escala e balanço com a África e o Brasil, estando, constantemente, entre as 10 mais faladas no mundo.

Mas que língua portuguesa é essa?

Se tivesse ficado confinada em Portugal, dentro da boca de 10 milhões de pessoas nos dias de hoje, ou de 1,5 milhão de habitantes em 1500, certamente, não estaria sequer entre as 100 línguas mais faladas no planeta.

Esta língua que ganhou riqueza no vocabulário com a contribuição do nagô, do ioruba, do tupi-guarani e do sotaque doce dos trópicos.

Reza a cartilha que a língua portuguesa é originária do latim vulgar, levada para a Península Ibérica pelos romanos e, com o tempo, evoluiu para o galego-português, se misturando com as línguas faladas localmente, dando origem ao português.

Portanto, desde sua gênese, a mistura é o grande barato, a grande "molhanga" que torna essa língua musical e irresistível.

A expansão portuguesa durante as navegações e a emigração espalhou o idioma para outros continentes, onde sofreu as tais bem-vindas novas influências.

Junto ao passaporte e ao cartão de cidadão, se deveria andar com um livro de história de bolso para se sentar num Rossio e ler para os mais jovens que não viveram os tempos de Estado Novo, nem tampouco o período que nossos antepassados portugueses emigravam com uma muda de roupa e a tal língua como guia.

Uma boa parcela do nosso povo português atrofiou intelectualmente ao parar de viajar, de ver paisagens nas viagens para perceber que não há risco de aculturação quando se conhece e se admira a cultura do outro.

Ouvir Tito Paris, Paulo Flores, José Eduardo Agualusa, Tom e Vinícius, Lula Pena, Toninho Geraes, Martinho Da Vila, Paulinho Da Viola, Chico Buarque, Amália, Elza Soares e Grande Otelo falarem português é delicioso.

O japonês ouve e diz: "Não sei o que cantam ou que dizem, só sei que quero ficar pertinho desse povo".

Lembro-me da frustração de Melody Gardot e Madeleine Peyroux — extraordinárias cantoras do jazz contemporâneas com quem colaborei — ao não conseguirem pronunciar o ditongo nasal "ão". A primeira tinha muitas dificuldades nas padarias do Rio de Janeiro ao pedir pão e não saber porque o padeiro estava rindo.

Há uma confusão tremenda com este embate desnecessário contemporâneo entre portugueses e brasileiros, plantado na propaganda política portuguesa e impulsionada pelas redes sociais de pesca fascista, de embarcações sem timão, sem capitão, sem vento, sem vela e sem horizonte, que fisgam facilmente o povo ignorante, deixando o anzol agarrado nos lábios e na própria língua.

Se eu falo português, minha terra é aqui… e acolá.

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