eco.sapo.pteco.sapo.pt - 29 ago. 10:45

Pessimismo regressa às famílias da Zona Euro

Pessimismo regressa às famílias da Zona Euro

Os consumidores da Zona Euro estão mais pessimistas, antecipando uma contração maior do PIB, um aumento do desemprego e rendimentos menores para os próximos 12 meses, segundo um inquérito do BCE.

A desconfiança relativamente ao futuro regressou às famílias da Zona Euro. Os consumidores europeus tornaram-se mais pessimistas em julho sobre as perspetivas económicas dos próximos 12 meses, antecipando uma contração ainda maior da economia, um aumento do desemprego e uma diminuição dos rendimentos, segundo os dados mais recentes do inquérito do Banco Central Europeu (BCE) divulgados esta sexta-feira.

As expectativas de crescimento do rendimento nominal dos consumidores para os próximos 12 meses diminuíram para 0,9% em julho, contra 1% em junho”, revela o mais recente Consumer Expectations Survey do BCE, ao mesmo tempo que dá nota de que as expectativas dos consumidores europeus apontam também para um crescimento esperado das despesas nominais para os próximos 12 meses de 3,3% em julho, face a um crescimento de 3,2% em junho.

No caso das famílias portuguesas, a expectativa é que os gastos aumentem 4,3% nos próximos 12 meses. Apesar de ficar abaixo das expectativas de junho (que apontavam para um aumento de 4,8%), é a terceira taxa mais elevada entre os 11 países da região que serviram de base para a construção do inquérito do BCE. Portugal apenas é superado pelas expectativas das famílias irlandesas e gregas, que antecipam um aumento de 4,5% e 9,4% das suas despesas nos próximos 12 meses.

Esta divergência sugere que os consumidores antecipam ter de desembolsar mais dinheiro mesmo com rendimentos a crescer menos — uma situação que espelha precisamente as pressões inflacionistas que continuam a condicionar o poder de compra das famílias. “Este aumento foi principalmente impulsionado pelos dois quintis de rendimentos mais baixos”, destaca o BCE, indicando que são as famílias mais vulneráveis economicamente aquelas que mais sentem a necessidade de aumentar os gastos.

Contrastando com o pessimismo económico generalizado, as expectativas inflacionistas mostraram sinais de estabilidade. “Em julho, a taxa mediana de inflação percebida nos últimos 12 meses manteve-se inalterada em 3,1% pelo sexto mês consecutivo”, refere o inquérito do BCE.

Curiosamente, a perceção sobre a inflação passada mantém-se estável. “O crescimento das despesas nominais percebido nos últimos 12 meses caiu para 4,7%, o nível mais baixo desde março de 2022”, sugerindo que os consumidores reconhecem que os aumentos de preços abrandaram face ao pico inflacionário vivido no pós-pandemia.

A habitação continua a ser uma das maiores fontes de preocupação para as famílias europeias, com os consumidores a anteciparem um aumento de 3,3% do preço das suas casas (face a 3,1% no inquérito de junho), ao mesmo tempo que esperam “que as taxas de juro hipotecárias nos próximos 12 meses subam para 4,5%, contra 4,3% em junho”.

As diferenças sociais são evidentes também neste campo. “Como nos meses anteriores, os agregados familiares de menores rendimentos esperam as taxas de juro hipotecárias mais altas 12 meses à frente (5,1%), enquanto os agregados de maiores rendimentos esperavam as taxas mais baixas (4%)”. Esta disparidade reflete não apenas diferentes perfis de risco de crédito, mas também o acesso desigual ao financiamento bancário.

Inflação em aparente estabilização

Contrastando com o pessimismo económico generalizado, as expectativas inflacionistas mostraram sinais de estabilidade. “Em julho, a taxa mediana de inflação percebida nos últimos 12 meses manteve-se inalterada em 3,1% pelo sexto mês consecutivo”. As projeções para o futuro próximo seguem a mesma tendência: “as expectativas medianas para a inflação nos próximos 12 meses mantiveram-se inalteradas em 2,6%”, refere o inquérito do BCE

No entanto, numa perspetiva de médio prazo, os consumidores antecipam alguma aceleração. “As expectativas para três anos à frente aumentaram para 2,5%, contra 2,4% em junho”. Já “as expectativas para a inflação cinco anos à frente mantiveram-se inalteradas em 2,1% pelo oitavo mês consecutivo”, sinalizando que os europeus continuam a confiar na capacidade do BCE de manter a estabilidade de preços no longo prazo.

Os inquiridos desempregados reportaram uma probabilidade ligeiramente maior de encontrar emprego nos próximos três meses, aumentando de 21,9% em abril para 22,6% em julho

Consumer Expectations Survey do BCE de julho 2025

No mercado laboral, apesar do aumento das expectativas sobre o desemprego para os próximos 12 meses, o BCE nota que “os consumidores continuam a esperar que a taxa de desemprego futura seja apenas ligeiramente superior à taxa de desemprego atual percebida (10,1%), sugerindo uma perspetiva de mercado de trabalho globalmente estável”.

Os dados trimestrais oferecem um retrato mais matizado desta realidade. “Os inquiridos desempregados reportaram uma probabilidade ligeiramente maior de encontrar emprego nos próximos três meses, aumentando de 21,9% em abril para 22,6% em julho”, destaca o inquérito. Em contrapartida, “os inquiridos empregados reportaram que a sua probabilidade esperada de perda de emprego nos próximos três meses aumentou para 8,7% em julho, contra 8,4% em abril”.

Os dados do mais recente inquérito do BCE às expectativas dos consumidores revelam uma Zona Euro com sentimentos contraditórios: por um lado, a inflação parece estabilizada e o mercado de trabalho mantém alguma resiliência; por outro, as perspetivas económicas deterioraram-se e as famílias antecipam ter de gastar mais com rendimentos que crescem menos.

Esta combinação de fatores desenha um quadro de incerteza que pode influenciar as decisões de política monetária do BCE nos próximos meses, numa altura em que a economia europeia navega entre as pressões geopolíticas globais e os desafios internos de uma recuperação ainda frágil.

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