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Será a corrupção o verdadeiro cão de guarda da Argentina?

Será a corrupção o verdadeiro cão de guarda da Argentina?

Talvez Milei devesse trocar os conselhos do cachorro por uma lição simples: sem enfrentar a corrupção estrutural, nenhum plano econômico — seja liberal, seja keynesiano ou espiritual — vai funcionar.

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Na Argentina, a história de que Javier Milei pede conselhos ao seu cachorro já deixou de ser piada para virar metáfora de um país onde a política parece ter perdido o bom senso. Enquanto o presidente se apoia em delírios místicos e latidos imaginários, a economia nacional segue no caos: inflação que corrói salários, pobreza crescente e uma dívida que ninguém sabe como pagar.


Mas não é só Milei, que, na quarta-feira, 27 de agosto, foi retirado de um comício do partido dele, o La Libertad Avanza (LLA), depois de o carro em que ele circulava entre a multidão ser apedrejado por manifestantes. A corrupção é o velho cão de guarda que nunca abandona a política argentina. Décadas de governos de todos os espectros prometeram mudanças, mas o sistema de favores, clientelismo e esquemas escusos segue firme. Resultado: fuga de capitais, falta de investimento produtivo e uma sociedade cada vez mais descrente.

O governo de Javier Milei, que prometia ser a antítese da "casta política” e da corrupção associada ao kirchnerismo, enfrenta agora seu próprio terremoto ético. O vazamento de áudios do ex-titular da Agência Nacional de Deficiência, Diego Spagnuolo, expôs uma suposta rede de cobrança de propinas para a compra estatal de medicamentos.

Segundo a denúncia, Karina Milei, irmã do presidente e secretária-geral da Presidência, e Eduardo “Lule” Menem, operador político e sobrinho do ex-presidente Carlos Menem, estariam no centro do esquema, que poderia movimentar até 800 mil dólares mensais.

Não é o primeiro escândalo a abalar o discurso anticasta de Milei, nem a primeira vez que ele demora a se pronunciar. Em fevereiro, a criptomoeda $LIBRA, que o presidente havia promovido em suas redes sociais, desabou após valorizar 1.300% em horas, deixando cerca de 40 mil pessoas no prejuízo e perdas estimadas em 180 milhões de dólares. Milei se distanciou do projeto depois, mas a imagem de um governo que prometia ser diferente começou a ser corroída.

O episódio, que já levou à abertura de investigações judiciais e a operações de busca, foi inicialmente silenciado pela Casa Rosada por cinco dias. Milei, fiel ao seu estilo, rompeu o mutismo não para esclarecer os fatos, mas para acusar o kirchnerismo de uma "operação política burra" e exaltar sua irmã em ato público, pedindo aplausos da plateia.

Essa reação evidencia um traço central do populismo: a construção discursiva do conflito permanente entre “povo” e “inimigos”. Como descreveu Ernesto Laclau, o populismo opera por meio da simplificação do espaço político em uma fronteira moral entre "nós" e "eles". No caso de Milei, os "eles" são os kirchneristas, o establishment político e qualquer ator que questione sua narrativa. Ao invés de responder às acusações de corrupção, o presidente transforma o episódio em mais um capítulo da batalha contra os inimigos internos.

O escândalo estoura em um momento delicado para o governo argentino: duas semanas antes das eleições provinciais em Buenos Aires e a menos de dois meses do pleito legislativo nacional. A crise ameaça enfraquecer Milei diante de um Congresso já hostil e pode desgastar o discurso anticorrupção que o ajudou a chegar ao poder.

O timing dos áudios, que surgem justamente às vésperas desse calendário eleitoral decisivo, acirra as suspeitas sobre o impacto político do caso e levanta dúvidas sobre até que ponto o governo conseguirá manter a narrativa de que tudo não passa de uma farsa articulada pela oposição.

Enquanto o presidente se diverte em batalhas ideológicas e provocações midiáticas e a oposição se perde em disputas internas, a população vive o dilema de como colocar comida na mesa. A inflação não late, mas morde — e morde forte.

Talvez Milei devesse trocar os conselhos do cachorro por uma lição simples da própria história argentina: sem enfrentar a corrupção estrutural, nenhum plano econômico — seja liberal, seja keynesiano ou espiritual — vai funcionar.

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