observador.pt - 29 ago. 15:34
Marcelo disse que Trump era um "ativo russo" e o que foi dito em Castelo de Vide viajou pela imprensa internacional
Marcelo disse que Trump era um "ativo russo" e o que foi dito em Castelo de Vide viajou pela imprensa internacional
Marcelo disse o que outros líderes afirmaram em privado, refere comentador nos EUA enquanto na Índia se avança que declarações do Presidente português geraram "nova polémica" diplomática.
Acompanhe o artigo em direto da guerra na Ucrânia
“O líder máximo da maior superpotência do mundo, objetivamente, é um ativo soviético, ou russo”. Foi com estas declarações que Marcelo Rebelo de Sousa rebentou uma bolha figurativa que, de certa forma, pode representar aquilo que é sentido pela comunidade internacional sobre Donald Trump. “Em termos objetivos, a nova liderança norte-americana tem favorecido estrategicamente a Federação Russa”, disse o Presidente da República.
As afirmações surgiram durante a Universidade de Verão do PSD, esta quarta-feira, quando o Chefe de Estado apareceu de surpresa no evento. O ministro dos Negócios Estrangeiros recusou comentar as declarações do Presidente esta sexta-feira. No entanto, Paulo Rangel, em Copenhaga para se reunir com os seus homólogos da União Europeia, aproveitou a oportunidade para esclarecer à RTP e ao país que “a condução da política externa cabe ao Governo e portanto obviamente é através do Governo que as posições de Portugal são veiculadas neste plano”. Porém, as palavras proferidas por Marcelo falaram mais alto e acabaram ecoadas por diferentes vozes. Desde a análise em direto na CNN internacional, a dezenas de publicações em jornais de todos os cantos do mundo, o que foi dito em Castelo de Vide rapidamente viajou pela imprensa internacional.
A voz mais mediática a pronunciar-se sobre o tema fora de Portugal foi Seth Jones, um antigo alto funcionário do Departamento de Defesa dos Estados Unidos da América, que nos estúdios da CNN Internacional comentou e analisou o impacto das declarações do Presidente português. O especialista norte-americano começa por admitir que “é um exagero” classificar Trump como um “ativo russo”, referindo que é algo que ouviu “de outros líderes europeus” em privado, mas que considera não existir “qualquer prova nesse sentido”.
Porém, remetendo para a década de 80 e a história do Partido Republicano, diz que líderes como Ronald Reagan têm a fama de ter sido “muito fortes a lidar com este tipo de comportamento agressivo, incluindo vindo de Moscovo”. Aí, considera que é “simplesmente inexplicável” a inação de Donald Trump após repetidas ameaças e em mais de meio ano na Casa Branca.
Ouvidas as suas declarações num dos canais noticiosos com mais audiências no mundo, a voz de Marcelo passou a integrar as páginas online de diferentes jornais internacionais — incluindo russos e ucranianos. O Kyiv Independent, um dos principais órgãos de comunicação social na Ucrânia, indica que Marcelo Rebelo de Sousa estava a discutir como “Trump representava uma nova geração de líderes mundiais num cenário global com dinâmicas de poder em rápida mudança”. Desta forma, recordam que o Presidente de Portugal não é o primeiro político europeu a fazer estas acusações, relembrando as afirmações do deputado britânico Graham Stuart, que levantou a possibilidade de Trump ter sido “preparado” pelo Kremlin ao longo dos anos.
O RBC Ukraine, por sua vez, escreve que “os esforços de Trump para se apresentar como o principal mediador para a reconciliação entre a Ucrânia e a Rússia não deixaram uma boa impressão no Presidente português”. Citam, ainda, Marcelo Rebelo de Sousa a dizer que “as tentativas de Trump para resolver a guerra não foram benéficas” para a Ucrânia. “Segundo o líder português, Trump tenta desempenhar o papel de árbitro, mas, ao mesmo tempo, quer negociar apenas com um dos lados”, lê-se, acompanhado de uma passagem a dizer que “Kiev e os seus aliados europeus são literalmente forçados a pressionar Washington para também participarem nas negociações”. Ao mesmo tempo, o ucraniano Novyny diz que “de acordo com” Marcelo, “Washington limita-se a retórica e a ameaças contra a Rússia, mas que ainda não há passos concretos da parte da administração Trump”.
A imprensa russa também reagiu às declarações do Presidente, mas a cobertura limitou-se a citar Marcelo Rebelo de Sousa, indicando apenas o que disse e com algum contexto. As palavras de Marcelo constam no The Moscow Times, por exemplo, indicando a “opinião [do Presidente] sobre a política de Washington”, remetendo para as declarações sobre Trump ser um “ativo soviético” e de estar a “favorecer estrategicamente” a Federação Russa.
Na imprensa norte-americana, o nome de Marcelo não aparece diretamente no título das notícias. No portal de notícias da Yahoo, o Presidente de Portugal é um “Líder Europeu” e, num registo semelhante, o site Mediaite escreve “Presidente europeu em funções chama Trump um ativo russo”. O primeiro refere que as declarações de Marcelo Rebelo de Sousa foram uma “crítica à resposta tépida” que Donald Trump tem dado a Moscovo durante a guerra. Já o segundo descreve que Marcelo “não poupou palavras” para criticar o seu homólogo norte-americano.
As palavras do Presidente da República chegaram também à Índia através da NDTV e do News Arena India, que descrevem a posição de Marcelo Rebelo de Sousa. “[Marcelo] sugeriu que as ações de [Trump] podem enfraquecer a posição da Ucrânia ou podem até indiretamente favorecer a Rússia”. “O Sr. Sousa acusou adicionalmente o Sr. Trump de falar duramente sobre a Rússia, ameaçando com sanções terríveis, mas afirmou que essas advertências não foram cumpridas”.
A “nova controvérsia” gerada por Marcelo Rebelo de Sousa está a ser visto principalmente como uma crítica ao “afastamento de Trump da política declarada de apoio incondicional a Kiev”, escreve o canal indiano. Para o IslamTimes, as declarações de Marcelo “reavivaram os ecos da saga Russiagate”, que Trump descreveu como sendo “o maior escândalo da história americana”, por alegações de conluio com o Kremlin.
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