publico@publico.pt - 29 ago. 14:41
Paixão e Paisagem
Paixão e Paisagem
“É só inquietação, inquietação. Porquê, não sei. Porquê, não sei. Porquê, não sei ainda. Há sempre qualquer coisa que está para acontecer. Qualquer
coisa que eu devia perceber…” Quando há uns anos conheci a pintura de Eugénia Mussa (1978, Maputo, Moçambique) foi a letra da música de José Mário Branco que me veio logo à cabeça. Inquietação. Num primeiro olhar as cores bonitas a criarem um muro para o resto. Num segundo olhar, a dúvida. “Porquê, não sei. Porquê, não sei ainda.” O “ainda” a prolongar-se indefinidamente. Cada tela como um fragmento-fotografia-frame que apanhava a meio e não conseguia perceber o que vinha antes e o que viria a seguir. Chegava sempre tarde, ou cedo de mais. Só sabia que aquilo que via era precisamente aquilo que não me permitia compreender a história, que me deixava alheada e ao mesmo tempo curiosa. Inquieta. “Há sempre qualquer coisa que está para acontecer”.
Com esta série de ilustrações feitas pela artista para o Canto II dos Lusíadas já não temos a desculpa de não conhecer a história. As outras histórias visuais que eu conhecia de Mussa eram só dela, só ela sabia de onde vinham. Agora não. Agora, nós como ela, temos uma grande legenda a contextualizar as imagens, o conhecimento partilhado de um dos fragmentos d’Os Lusíadas. Ou não. A artista subverte a narrativa, a sucessão de acontecimentos, para pintar outras histórias que não estão no texto de Camões. É verdade que reconhecemos um aquário onde as “ninfas”, mulheres sereias e mulheres anjas, seres esvoaçantes ao longe no céu, rodeiam as duas caravelas no centro da água, como duas sombras vulneráveis na paisagem – e essa é uma referência direta à proteção que as mulheres-mitológicas fazem aos navegadores portugueses ameaçados (resistidos?) na costa oriental africana. É certo que, numa das outras ilustrações da artista, temos um enorme corpo contorcido, um torso de mulher a tocar na (sua) cauda de peixe.
Mas vemos também cenas que nada têm a ver com a ilustração literal da obra de Camões, como o fumo negro denso a expelir das chamas no Cais ou uma estátua sem contornos numa paisagem quase abstrata. A Mussa interessa-lhe mais o autor em si do que o enredo do Canto II d’Os Lusíadas. Interessa-lhe mais aquilo que está por detrás da escrita do que a escrita em si. A mão – corpo e cabeça – do autor mais do que as palavras que deixou. Camões como homem apaixonado e livre, a paixão e a liberdade que o fez escrever assim, mas também viver assim, e pagar o preço da sua intensidade. Inquietação? Inspirada nessa liberdade, nesse risco destemido, a mão de Eugénia também se soltou em paisagens gestuais, onde o movimento das emoções se transforma em pincelada velozes. Inquietas.