eco.sapo.ptRosália Amorim - 29 ago. 15:17

Floresta: a oportunidade para deixar marca

Floresta: a oportunidade para deixar marca

De pouco importará falar dos sonhos e da saúde do regime nos discursos do 25 de Abril ou do 5 de Outubro, se o fogo não parar de lavrar e consumir as bases da árvore da democracia.

Os terríveis fogos florestais deste verão de 2025 podem ser uma oportunidade para este Governo deixar uma marca de real reforma da floresta, tantas vezes anunciada por vários primeiros-ministros. Os incêndios fustigam o país há décadas e era suposto ter havido medidas no terreno, pelo menos, após a tragédia de 2017.

Verão após verão são anunciadas medidas, feitos estudos e criadas comissões de especialistas. Na prática, não há ordenamento do território, nem política florestal, nem levantamento cadastral das propriedades. E assistimos, com alguma angústia e impotência, a um consecutivo abandono do interior e, claro, à repetição de fogos florestais em áreas cada vez maiores e desertificadas.

Também é verdade que este não é um caso apenas de Portugal. Como temos visto, Espanha, França, Grécia e vários países do sul da Europa estão cada vez mais expostos aos efeitos das alterações climáticas. Se assim é, e sabendo que as temperaturas extremas são uma ameaça que se vai repetir nos próximos anos, a questão está em saber como prevenir e reverter uma situação cada vez mais trágica e que afeta toda a população, na qualidade de vida, da água ou do ar que se respira.

Se todos entendemos que esta é, de facto, uma prioridade nacional e europeia, então devemos ser consequentes, a começar pela atuação da Presidência da República, Assembleia da República, Governo, autarquias e comunidades intermunicipais. Se todos consideramos intolerável não saber, há décadas, quem são os proprietários de mais de dois terços do território nacional, como é possível não resolver com urgência? Que medidas em concreto preconizam os responsáveis políticos?

Que incentivos devem ser dados para a limpeza de floresta e mato, quando os sistemas de multas não funcionam e muitos proprietários não têm rendimento, nem mão-de-obra, para essa tarefa? Como desincentivar a monocultura do eucalipto e do pinheiro, se a maioria dos proprietários rurais é pobre e envelhecida e não pode esperar 10 ou 20 anos pelo crescimento de espécies autóctones resistentes aos incêndios?

Se o Estado somos todos nós, então este é o momento de tomar medidas e, por isso, o Governo tem uma oportunidade de deixar uma marca. Se nada for feito rapidamente, há margem de progressão do discurso populista, o que é perigoso para a democracia e para a República.

Agora, vem o regresso às aulas, a chuva, o orçamento do Estado e, a seguir, o Natal e novas promessas para o ano que vem… Esta é uma grande oportunidade para o Governo trabalhar com um cronograma bem definido e contemplar no OE 2026 o custo de medidas urgentes, sabendo que uma verdadeira reforma da floresta implica uma ação plurianual de médio e longo prazo e, provavelmente, um pacto de regime.

Se ficarem pelos debates parlamentares, em que passam as culpas de uns para os outros, então não estarão a respeitar as populações do interior, nem os bombeiros, nem os turistas ou os potenciais investidores nacionais e estrangeiros.

Neste final de verão, a imagem é a seguinte: Portugal (e Espanha) ardeu e é líder europeu em área ardida. Esta não é uma medalha ou um troféu que queremos exibir. O desafio é claro: temos cinco a dez anos para reverter esta situação e sermos os melhores na gestão da floresta e na prevenção dos incêndios, deixando de deitar lenha para a fogueira com material de altíssima combustão.

Vem aí um novo ciclo político: novo Presidente da República, em janeiro de 2026, e novos autarcas, após as eleições de outubro. Se o atual Governo, os novos presidentes de Câmara e o próximo Presidente da República nada fizerem em concreto para reverterem o estado de calamidade da floresta e do território, há material inflamável para o regime democrático, tal como o conhecemos hoje. Depois, de pouco importará falar dos sonhos e da saúde do regime nos discursos do 25 de Abril ou do 5 de Outubro, se o fogo não parar de lavrar e consumir as bases da árvore da democracia.

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