publico.pt - 29 ago. 16:30
Educação para a cidadania: “Dêem-nos autonomia e deixem-nos trabalhar”
Educação para a cidadania: “Dêem-nos autonomia e deixem-nos trabalhar”
Filinto Lima, presidente da Associação de Directores de Agrupamentos e Escolas Públicas, lembra os vários desafios do 1.º período. Ter planos para a Cidadania é mais um.
A questão da educação sexual é reintroduzida na Estratégia Nacional de Educação para a Cidadania, publicada hoje, na dimensão da saúde, que é uma das previstas. Diz-se que essa dimensão da saúde também se destina a promover a saúde sexual e reprodutiva. Isto resolve as críticas que foram feitas de que se tinha apagado a educação sexual desta disciplina?
Não estando ainda divulgadas as aprendizagens essenciais, parece-me que este documento é uma espécie de preâmbulo ao documento das aprendizagens essenciais para a disciplina de Cidadania, que ainda não conhecemos. Mas mesmo este preâmbulo parece-me que fica aquém das críticas da altura de vários sectores da sociedade. Estamos muito curiosos, muito expectantes, em relação às aprendizagens essenciais.
O Ministério da Educação quer que as escolas assimilem estes documentos e tenham, até 12 de Dezembro, as suas estratégias de escola e de turma aprovadas. O tema é complexo. É razoável fazer isto até ao final do 1.º período?
Vamos entrar num ano com falta de professores, com novas regras, por exemplo, para o uso dos telemóveis (e acho que é uma área muito preocupante, para todos nós, fazer cumprir a nova directiva), estamos num sistema educativo cheio de burocracia, cheio de papelada, com muito trabalho, com alunos cada vez mais desafiantes, cada vez mais heterogéneos. Se o Ministério da Educação diz que temos que aprovar isto até ao dia 12 de Dezembro, iremos fazer por isso. Mas não sei se em muitas situações esse prazo não vai ter que ser estendido. São cerca de três meses para concretizar algo bastante importante. E complexo.
Vamos ter que envolver a comunidade educativa, os pais, os alunos, os professores, os funcionários, a autarquia, toda essa gente vai ter que ser envolvida. Os conselhos gerais, que por norma só se reúnem uma vez por período lectivo, vão ter que ser envolvidos, vão ter que validar... Temo que possa ser um prazo curto. Mais para a frente, o ministério irá com certeza alargar esse prazo.
E nestes primeiros três meses do ano, como é que vão fazer com esta disciplina?
Acho que as escolas irão fazer aquilo que fizeram até agora, e programar o que será a partir de Janeiro. E deve ser dada autonomia às escolas para realizar esse documento. Cada escola é uma escola, e o ministério deve confiar nos órgãos das escolas, e sobretudo nos directores, e que nos deixem trabalhar. Muitas vezes complicam-nos a vida sem querer...
Está a falar, por exemplo, da questão dos mediadores linguísticos e culturais, que promovem a integração de crianças imigrantes. Foi hoje noticiado que os directores foram apanhados desprevenidos porque vão arrancar o ano sem mediadores?
Sim. A figura do mediador chegou ao sistema educativo nacional no início deste ano civil, Fevereiro, Março, eu tive na minha escola meio mediador, 18 horas. É uma figura muito importante, está a ganhar grande protagonismo, porque cada vez mais, como sabe, temos alunos estrangeiros. Mas vamos começar o ano deficitários. Havia alguma necessidade de estes mediadores, que fizeram um bom trabalho, no dia 1 de Setembro estarem desempregados? Todos, todos, todos, os 260 ou mais, que estavam ao serviço das escolas públicas portuguesas? Temos que abrir um concurso, que vai demorar semanas. Muitos directores queriam a recondução, muitos mediadores queriam ficar nas escolas, a recondução está à distância de um clique. Esta semana reconduzimos os psicólogos, reconduzimos os terapeutas, reconduzimos os assistentes sociais, reconduzimos todos os técnicos especializados, mas não conseguimos reconduzir os mediadores, porque não tivemos autorização.
Sabe, nós precisamos é que nos ajudem, e que esta agência que foi criada [no âmbito da reforma do Estado], que vai assumir as funções de direcções-gerais do ministério, nos ajude e tenha pessoas que saibam da poda! Que não vá buscar boys — de um partido ou de outro, é igual ao litro. Que não vá buscar boys para preencher lugares que merecem ter alguém à frente com experiência e que saiba o que está a fazer. Não vão buscar nenhum gestor, que não percebe nada de educação!