publico.pt - 29 ago. 10:23
Em Ibiza, o turismo “empurra” trabalhadores do sector para barracas e autocaravanas
Em Ibiza, o turismo “empurra” trabalhadores do sector para barracas e autocaravanas
Enquanto milhões de turistas se divertem na "isla de la fiesta", quem trabalha no sector tem dificuldade em encontrar um lugar digno para viver. "Trabalhar só para pagar a renda não é uma opção."
“Esta ilha é o paraíso, é o lugar mais bonito que já vi na minha vida”, diz à Reuters Jeronimo Diana, canalizador de origem argentina, de 50 anos, que trabalha em Ibiza, a ilha espanhola conhecida como a “ilha da festa”. “Mas há um lado sombrio”, adverte. “Eu tenho um contrato de trabalho sem termo, ganho 1800 euros por mês, mas não ganho o suficiente para pagar a renda de uma casa.”
A conversa entre Jeronimo e a agência Reuters decorre num aldeamento improvisado onde cerca de 200 pessoas, quase todas trabalhadoras do sector do turismo, vivem no interior de barracas, tendas de campismo, carros, caravanas ou autocaravanas. “Can Rovi 2”, o nome pelo qual o “bairro” era conhecido na ilha, foi desmantelado pelas autoridades em Julho, obrigando os residentes a procurar novas soluções de habitação. Há, de acordo com as autoridades, cerca de mil pessoas a viver nestas condições, em Ibiza – uma realidade distante e, ao mesmo tempo, tão próxima dos mais de 4 milhões de turistas que visitam a ilha anualmente.
Em Ibiza, há festa todos os dias. Milhares de pessoas, vindas de países como Inglaterra (quase um milhão de ingleses estiveram em Ibiza em 2024), Itália, Alemanha, Países Baixos, França, aproveitam o bom tempo, as praias, as piscinas dos hotéis, as viagens de barco ao largo da ilha. Mas também há festa todas as noites, toda a noite – e esses mesmos turistas aproveitam para dançar ao ritmo da música latina ou house, entre os feixes de laser nas discotecas ao ar livre, consumindo álcool ou drogas até ao amanhecer.
É sobretudo durante o turno da noite que a técnica de emergência médica Maria Jose Tejero, de 24 anos, “se sente como babysitter” de turistas, contou à Reuters, que captou imagens em que a jovem presta apoio a um turista com intoxicação alcoólica. “As pessoas vêm para cá, bebem, tomam drogas e pensam que a vida é só uma festa, quando a vida também pode chegar ao fim.” Tejero vive num pequeno apartamento que se vê forçada a partilhar com mais duas pessoas, uma vez que o valor da renda é o dobro do seu salário.
Um pequeno apartamento de 50 metros quadrados, em Ibiza, custava, em média, em 2024, de acordo com a plataforma Idealista, cerca de 1900 euros; o salário mínimo, em Espanha, é de 1381 euros mensais. A discrepância entre os dois valores força muitos dos residentes de Ibiza a viver em casas partilhadas, a mudar-se para fora da ilha, ou, em último caso, a viver em tendas ou caravanas em assentamentos ilegais. Ibiza tem assistido, nos últimos anos, ao êxodo de profissionais de saúde e de educação, que não conseguem fazer face às suas despesas; muitos funcionários públicos preferem viver em Menorca ou Mallorca e, diariamente, deslocarem-se para o trabalho entre ilhas.
Durante o dia, Lia Romero é enfermeira; de noite, dança numa discoteca, Amnesia. A jovem de 28 anos, natural das ilhas Canárias, Espanha, garante que, mesmo com dois empregos, o que ganha não é suficiente para arrendar um apartamento sozinha, para comer num restaurante ou para sair à noite. “Em Ibiza, é tudo uma questão de pose e de exibição de riqueza”, disse. “Aqui não há espaço para as pessoas comuns.”
Não há espaço para pessoas como Jonathan Ariza, mecânico e trabalhador da construção civil de origem colombiana, que vive numa caravana, perto do principal hospital da ilha; para pessoas como Alejandra, de 31 anos, que trabalha num hotel vive com o filho de três anos, David, num abrigo da Caritas depois de ter sido forçada a abandonar a tenda onde ambos viviam. Não há espaço também para pessoas como Saray Benito, de 32 anos, que em 12 anos mudou mais de 20 vezes de casa. Mas então há espaço para quem?
O problema da habitação está longe de ser exclusivo de Ibiza. Espanha recebeu, em 2024, 94 milhões de turistas – o segundo na tabela de países mais visitados do mundo, ultrapassado apenas pela França, que suplantou os 100 milhões de visitantes – e essa afluência tem um custo elevado para os espanhóis, que se têm manifestado, repetidamente e por todo o país, contra o sobreturismo e os seus efeitos, exigindo aos governos, central e regionais, a implementação de medidas no sentido do controlo do preço das rendas, da imposição de restrições no licenciamento ao alojamento local e restrições à entrada de turistas no país.