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"O Clube do Crime das Quintas-Feiras": promessas de mistério, resultados medíocres apesar de Helen Mirren, Pierce Brosnan e Ben Kingsley

"O Clube do Crime das Quintas-Feiras": promessas de mistério, resultados medíocres apesar de Helen Mirren, Pierce Brosnan e Ben Kingsley

Entre reviravoltas genéricas e personagens sem arco, filme da Netflix mostra que nem sempre um elenco de luxo é suficiente para salvar uma narrativa mediana.

A HISTÓRIA: Quatro reformados imparáveis ocupam o seu tempo a resolver casos de homicídio arquivados para se entreterem, mas as suas investigações casuais assumem contornos emocionantes quando o quarteto se depara com um mistério real.

"O Clube do Crime das Quintas-Feiras": na Netflix desde 28 de agosto.

Crítica: Manuel São Bento
(Aprovado no Rotten Tomatoes. Membro de associações como OFCS, IFSC, OFTA. Veja mais no portfolio).

Há quem acredite que possuir expectativas moderadas para qualquer filme seja a melhor forma de evitar desilusões. No caso de "O Clube do Crime das Quintas-Feiras", a fasquia estava, de facto, moderadamente baixa. Chris Columbus ("Sozinho em Casa") é um nome que, para mim, sempre funcionou melhor como produtor do que como realizador. Embora a sua filmografia inclua títulos de grande impacto popular, raramente senti verdadeira personalidade autoral no seu trabalho atrás da câmara. Sem conhecer o material de origem, mas sendo fã assumido do género "murder-mystery", confesso que fui de espírito aberto, motivado acima de tudo pelo elenco de luxo reunido: Helen Mirren ("A Rainha"), Pierce Brosnan ("007 - GoldenEye"), Ben Kingsley ("Gandhi") e Celia Imrie ("Meninas de Calendário") prometiam pelo menos uma dinâmica divertida, mesmo que a obra não atingisse o brilhantismo de outras no género.

Adaptado por Katy Brand ("Good Luck to You, Leo Grande") e Suzanne Heathcote ("Killing Eve"), "O Clube do Crime das Quintas-Feiras" segue um grupo de reformados que se junta para investigar homicídios não resolvidos, encontrando-se de repente envolvidos num caso mais complicado do que esperavam. É o tipo de premissa que, no papel, tem todos os ingredientes para entreter: um mistério intrigante, personagens carismáticas e uma boa dose de humor britânico. No entanto, na prática, a execução deixa muito a desejar.

O ponto mais forte de "O Clube do Crime das Quintas-Feiras" confirma-se desde cedo: o elenco. Ver atores veteranos como Mirren, Brosnan, Kingsley e Imrie partilhar o ecrã é um prazer inegável. Existe uma química palpável entre eles e as interações em grupo são frequentemente a parte mais envolvente da narrativa. Mirren destaca-se naturalmente como a protagonista mais misteriosa, mantendo sempre aquele ar enigmático que convida à especulação. Ainda assim, é Brosnan quem garante os momentos mais cómicos, com uma entrega que parece nascer de uma genuína fruição em brincar com o estereótipo de galã envelhecido.

No entanto, por muito competentes que sejam, as personagens acabam por se revelar superficiais. "O Clube do Crime das Quintas-Feiras" opta por apresentar os seus traços através de diálogos expositivos, nos quais cada um conta resumidamente a sua vida antes e depois da reforma. É um método funcional, mas que não gera verdadeiro investimento emocional. São figuras em serviço do enredo, peças necessárias para mover a narrativa central, mas raramente mais do que isso.

E essa narrativa, infelizmente, não tem o vigor ou a originalidade necessários para manter o interesse ao longo de duas horas. O mistério aparenta ser demasiado genérico, construído em cima de peças que encaixam sem grande surpresa. O público assiste ao desenrolar do puzzle sem se deparar com reviravoltas impactantes ou revelações verdadeiramente inesperadas. Não há sensação de perigo iminente e as consequências nunca chegam a pesar. A luminosidade excessiva e aparência televisiva típica de produções da Netflix só reforça a sensação de artificialidade. É impossível não pensar em "Knives Out", que, apesar de igualmente colorido e acessível, conseguiu encontrar o equilíbrio perfeito entre mistério, humor e crítica social — algo que "O Clube do Crime das Quintas-Feiras" nunca atinge.

Importa também sublinhar um ponto muitas vezes debatido quando se fala deste género: previsibilidade. Existe a tendência de avaliar estas narrativas apenas pela sua capacidade de surpreender, como se descobrir a solução antes do final fosse sinónimo de fracasso da obra. Pessoalmente, considero essa abordagem simplista e até arrogante. Resolver o mistério antes da revelação não faz automaticamente do espectador um crítico mais atento nem torna a obra inferior. O problema em "O Clube do Crime das Quintas-Feiras" não está na questão de alguém poder adivinhar a resolução, mas sim no vazio que se sente mesmo quando as peças se alinham. Falta intensidade, emoção e aquele toque que transforme o previsível em memorável.

Do ponto de vista técnico, há pouco a destacar. A banda sonora de Thomas Newman ("Beleza Americana") cumpre o seu papel com elegância, acrescentando alguma textura a um ambiente que, de outra forma, seria demasiado estéril. As localizações são agradáveis, com um charme britânico inegável, mas nunca chegam a ser exploradas de forma particularmente criativa pela lente de Columbus. Tudo funciona, nada se destaca.

No campo temático, o desapontamento é ainda maior. "O Clube do Crime das Quintas-Feiras" tinha em mãos a oportunidade de explorar questões ricas e universais: o envelhecimento e a mortalidade, a importância da amizade e da comunidade, o peso da justiça e do arrependimento numa fase tardia da vida. Contudo, tal como acontece com as personagens, estas ideias ficam pela superfície. Há menções ocasionais, frases soltas que parecem apontar para reflexões mais profundas, mas nunca existe a coragem de mergulhar verdadeiramente nestas dimensões. O resultado é uma história que, apesar de agradável à primeira vista, acaba por soar vazia quando os créditos finais surgem.

Conclusão

"O Clube do Crime das Quintas-Feiras" é uma obra formulaica e pouco memorável. Não é um desastre — a presença magnética do elenco impede que alguma vez se torne em algo desse nível —, mas também não oferece nada que já não tenhamos visto em produções televisivas de segunda linha. Para quem se deixa entusiasmar com o género em questão, a experiência sabe a oportunidade perdida. A leveza cómica não é suficiente para compensar a falta de tensão. Para quem procura entretenimento leve e sem grandes exigências, poderá funcionar como passatempo simpático. Para quem espera mais do que o mínimo, dificilmente passará da mediocridade.

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