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Ciência Quântica: a revolução invisível que vai transformar o mundo

Ciência Quântica: a revolução invisível que vai transformar o mundo

Catarina Bastos destaca o trabalho que Portugal tem feito na área da ciência e tecnologia quânticas, apontando o projeto DISCRETION como um bom exemplo....

Por Catarina Bastos (*)

A proclamação de 2025 como o Ano Internacional da Ciência e Tecnologia Quânticas pela ONU marca um reconhecimento global do potencial transformador desta tecnologia. Uma disciplina que estuda o comportamento das partículas em escalas subatómicas e promete revolucionar áreas como a computação, a segurança, a saúde, a energia e a educação, sendo também uma aliada estratégica para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Agenda 2030.

Ao contrário da física clássica, a ciência quântica revela fenómenos como a superposição (uma partícula em dois estados simultaneamente) e o entrelaçamento (comunicação instantânea entre partículas distantes). Estas propriedades sustentam tecnologias emergentes como computadores quânticos, sensores ultrassensíveis e comunicações invioláveis.

Em que é que isto se traduz? Os computadores quânticos, por exemplo, podem resolver problemas complexos em segundos, que levariam milhares de anos a resolver-se num computador tradicional. No entanto, também representam uma ameaça aos atuais sistemas de criptografia. A chamada “Era Pós-Quântica” exigirá novas soluções criptográficas resistentes a ataques quânticos, sob pena de comprometer a confidencialidade de dados sensíveis, mesmo os armazenados hoje.

Aqui, a criptografia quântica surge como resposta, oferecendo comunicações praticamente invioláveis. Na saúde, sensores quânticos prometem diagnósticos mais rápidos e precisos. Na logística, algoritmos quânticos podem otimizar rotas e reduzir emissões.

Portugal tem vindo a afirmar-se neste domínio. Universidades e centros de investigação participam em projetos internacionais, e a colaboração entre academia, indústria e Estado tem sido essencial, com destaque para dois projetos que considero estratégicos.

O DISCRETION, liderado por uma equipa de Portugal e com participação da Espanha, Áustria e Itália, tem o objetivo de estudar, desenhar e desenvolver uma rede definida por software que gere nós de distribuição quântica de chaves criptográficas, permitindo estabelecer uma rede altamente segura, escalável e resiliente para ambientes militares no âmbito do Fundo Europeu de Defesa (FED) e cofinanciado pelo Gabinete Nacional de Segurança (GNS), pelo Estado Maior General das Forças Armadas (EMGFA) e o Ministério da Defesa Nacional.

E o PTQCI (The Portuguese Quantum Communication Infrastructure), o primeiro segmento terrestre português do euroQCI, a Infraestrutura de Comunicações Quânticas Europeia, que será implementado em Lisboa entre quatro edifícios governamentais de áreas de soberania e que pretende usar a tecnologia desenvolvida no DISCRETION e apoiar a rede segura nacional ÉGIDE.

De salientar que do projeto DISCRETION resultaram dois protótipos nacionais - nós de distribuição quântica de chaves e máquinas de cifra - que valeram a Portugal o Prémio de Inovação Nacional 2025 em Cibersegurança, reforçando o papel de liderança do nosso país nesta área. Portugal está, sem dúvida, na linha da frente desta tecnologia emergente num contexto de defesa e com enorme potencial de mercado.

No entanto, apesar dos avanços, persistem desafios: é necessário reforçar o financiamento, acelerar a transição da investigação para o mercado e investir na formação de recursos humanos especializados. A articulação entre academia, empresas e Estado é crucial para consolidar Portugal como referência europeia neste ecossistema emergente.

Ignorar esta revolução é abdicar de participar numa das maiores transformações tecnológicas da história. A ciência quântica não deve ser apenas uma prioridade académica, mas um verdadeiro motor de inovação, segurança e desenvolvimento económico e social.

(*) (PhD Physics), Head of Secure Communications and Quantum Technologies na Indra Space* (Indra Group)

*A 1 de novembro de 2024, a Indra Space reforçou a sua presença no setor aeroespacial europeu com a aquisição da Deimos, consolidando a sua atuação em tecnologia e espaço

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