expresso.ptexpresso.pt - 29 ago. 12:49

Revolucionar o sono, para quem dorme mal: transferir o diagnóstico do hospital para casa e usar a IA para perceber os padrões

Revolucionar o sono, para quem dorme mal: transferir o diagnóstico do hospital para casa e usar a IA para perceber os padrões

Desde a informação sobre milhares de perfis de sono até uma nova forma de diagnóstico, um projeto europeu quer mudar a forma como se trata e pensa a apneia do sono

A síndrome de apneia obstrutiva do sono é uma perturbação respiratória, relacionada com o sono, que afeta cerca de 4% da população, segundo a Fundação Europeia do Pulmão. Caracterizada por paragens na respiração no sono durante uns segundos, esta doença impossibilita um descanso adequado. Apesar de poder gerar complicações como hipertensão ou um AVC, é frequentemente subdiagnosticada e a adesão ao tratamento é um desafio. Mas um projeto quer agora revolucionar este paradigma.

“O nosso foco é revolucionar o sono, essencialmente é daí que surge o nome do projeto”, explica Anna Sigríður Islind, investigadora principal do projeto Sleep Revolution e diretora do Centro de Sistemas de Informação e Ciência de Dados da Universidade de Reiquejavique, na Islândia. A revolução surge tanto no diagnóstico como numa abordagem mais personalizada a cada paciente.

Para diagnosticar esta doença é necessário um exame que analisa o sono, a polissonografia, mas “as listas de espera nos hospitais são muito longas e há várias pessoas que esperam anos pelo diagnóstico com várias complicações que são uma espécie de estrangulamento”. A escassez de profissionais de sono para analisar os resultados dos exames é um dos aspetos que aumenta estas listas.

De forma a acelerar este processo, procuraram modernizar o diagnóstico com a utilização de inteligência artificial (IA) para o tornar “mais curto e mais simples de usar”. Os algoritmos analisam os padrões de sono que são, depois, validados pelo especialista do sono. Esta análise permite também aferir a severidade da doença e personalizar o tratamento.

Normalmente, o exame avalia apenas uma noite de sono numa unidade hospitalar, mas “todos dormimos de forma diferente dependendo da noite que é, dos hábitos que tivermos ao longo do dia, por isso, uma noite pode não ser ilustrativa de todo o perfil de sono”. Além disso, a utilização de sensores durante o exame “não é muito confortável”. “A primeira noite é sempre afetada por estarmos a dormir com muitos sensores” e no hospital, lembra Anna Sigríður Islind.

Para resolver este problema, a equipa de investigadores desenvolveu um dispositivo com sensores mais simples e confortável, capaz de monitorizar o paciente durante três noites no conforto da sua habitação. Aliado a este sistema, conceberam uma app, em conjunto com os profissionais de saúde, para o paciente avaliar a sua própria qualidade de sono e aumentar a sua participação no tratamento. “Há também uma discrepância e temos de ter em conta a experiência subjetiva do doente. Por vezes, o smartwatch diz-nos que dormimos muito mal, mas sentimo-nos bem, ou diz-nos que dormimos muito bem, mas não nos sentimos descansados.”, salienta a investigadora. Mais de mil pacientes por toda a Europa já testaram esta tecnologia.

Com esta forma de diagnóstico, o projeto Sleep Revolution quer desenvolver uma abordagem mais personalizada ao sono. Através dos dados recolhidos dos ensaios clínicos, estão agora a categorizar os diferentes perfis de sono e a avaliar como os vários fatores podem impactar. “O sono das mulheres, por exemplo, ainda não foi totalmente explorado. Por isso, estamos muito entusiasmados com a possibilidade de analisar esses dados numa escala muito maior para compreender o impacto do ciclo nos padrões de sono das mulheres”, revela. Analisaram ainda a eficácia de alguns exercícios respiratórios, e “essas descobertas também conduzirão a novas vias clínicas de tratamento”.

Anna Sigríður Islind explica que o foco do projeto na síndrome de apneia obstrutiva do sono se deve ao facto de ser a doença mais frequente, mas não descarta a hipótese de aplicar as técnicas desenvolvidas noutro tipo de doenças, como as insónias.

Ainda por terminar, o projeto Sleep Revolution recolheu uma enorme quantidade de informação, que deu origem a mais de 100 artigos científicos. “Há tanto que não sabemos sobre o sono”, como “a ligação com diferentes estilo de vida”, mas “estivemos a recolher tanta informação, que a comunidade europeia beneficiará destes resultados nos próximos anos”.

A ajuda imprescindível dos fundos comunitários

O projeto Sleep Revolution reuniu especialistas de diversas áreas, desde a medicina à engenharia, da Islândia, Finlândia, Noruega, Austrália, Estónia, Alemanha, Suécia, Bélgica, Grécia, Irlanda, França, Turquia, Chéquia, Portugal, Itália, Roménia, Croácia e Polónia. Foi liderado pela Universidade de Reiquejavique e recebeu cerca de 15 milhões de euros através do programa da União Europeia, Horizonte 2020.

Uma das vantagens de um projeto europeu é, precisamente, a possibilidade de ligar várias áreas distintas entre si, além de permitir aprofundar conceitos teóricos. O financiamento foi “fundamental”, sem este “seria impossível fazer uma fração” do projeto. Este apoio “elevou a pesquisa dos distúrbios do sono na Europa a um nível completamente novo”, garante a investigadora.

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