publico@publico.pt - 29 ago. 07:00
Até quanto a cultura resistirá aos demagogos?
Até quanto a cultura resistirá aos demagogos?
Enquanto as diferenças forem afirmadas como retóricas políticas fora das diferenças reais culturais e sociais, a divergência tenderá a crescer e a confiança institucional a diminuir.
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Em 2021, o bailarino Stephen Nakagawa, integrante do Washington Ballet, com ascendência japonesa, criou a coreografia Rising Sun (Sol Nascente) para a companhia. Foi sua reação à onda de ataques e discriminação nos Estados Unidos contra os asiáticos-americanos. Naquele momento, a COVID-19 se espalhara por todos os lugares, e os asiáticos passaram a sofrer assédios, discriminações, agressões físicas e insultos raciais, assaltos e violências direcionados, sobretudo, a idosos e mulheres, segundo os relatórios da Stop AAPI Hate. Medo e ansiedade se misturavam à sensação de vulnerabilidade, construindo um isolamento social e racial ainda maior nos espaços públicos.
Nakagawa percebeu no balé a possibilidade de dar outra perspectiva aos asiáticos-americanos a partir de uma coreografia que unia os movimentos da dança clássica, do teatro kabuki japonês e da cerimônia do chá. Em entrevista para o jornal independente City Paper, já em 2022, ele explica sua intenção da seguinte maneira: “Eu queria mostrar ao mundo, durante o aumento da violência contra a comunidade AAPI, que permaneceremos unidos. O título — Sol Nascente — significa que a comunidade AAPI permanecerá unida e forte, esperando por um novo dia. Um dia em que nossa herança seja vista em todo o mundo como algo para se orgulhar.
O tempo passou. Nakagawa foi anunciado como o novo diretor de Programação de Dança do John F. Kennedy Center for the Performing Arts, em Washington D.C. Não por defender o fim das diferenças, mas por se descrever simpático a Donald Trump e preocupado com a direção do balé nos Estados Unidos, diante do crescimento da cultura woke. O paradoxo parece ser seu entendimento de o asiático não ser uma raça igual a quaisquer outras submetidas a isolamento e racismo, como se houvesse hierarquia de violências, algumas inaceitáveis, outras inevitáveis.
A discussão sobre esses sentimentos é longa e tem se mostrado ao mesmo tempo improdutível e perigosa. Quando as comunidades e indivíduos marginalizados e impedidos de participarem da vida social e cultural perceberam a possibilidade de interromper esse processo histórico, o meio editorial, por exemplo, assimilou uma nova presença: os sensitivity readers. Na prática, revisores contratados especificamente para identificar racismos, sexismos e outras formas de agressão nos textos e livros. A intenção original é torná-los cada vez mais empáticos às singularidades e diferenças.
Os excessos inevitáveis tornaram por vezes o processo de orientação um gesto policialesco. Surgiram estudos e investigadores sobre os problemas do movimento. Livro após livro, alguns caricatos e outros mais sérios, buscam compreender os limites e liberdades nas criações. Há pouco, a Presses Universitaire de France — fundada em 1921 e unida à Éditions Belin para formar o grupo Humensis, uma das mais relevantes casas editoriais francesas para textos acadêmicos sobre as ciências humanas e sociais — também anunciou o seu contra o wokismo. Com a imediata reação de intelectuais de esquerda, a PUF suspendeu o lançamento, enquanto sofria vandalismos em sua sede. Com novas manifestações e pressões de intelectuais que a acusavam de censura, a publicação lançada no final de abril já vendeu milhões de exemplares.
Para muitos, tentar resolver o dilema é o principal; definir, de uma vez por todas, quem tem razão e, a partir dela, determinar tudo mais. No entanto, essas tentativas apoiam-se na divergência como algo estrutural, esquecem-se de nunca ser efetivamente neutras e sustentam com radicalismo o isolamento individual e a redução da coesão social como impossíveis de serem superados. Esse processo de diferenciação diminui a confiança interpessoal e institucional. Por isso, só mesmo a identidade é capaz de estabelecer vínculos políticos, e estes devem ser impostos exatamente pela verdade dessa identidade.
Polarização e exclusãoA dimensão de controle do outro, explicada pela visão limitada sobre o sujeito tratado por diferente, é responsável por conflitos, polarizações e políticas de exclusão que disfarçam o racismo e imperialismo em nome da liberdade. Proíbe-se sob a justificativa de liberdade. Quando o discurso político e institucional distorce os sentidos das palavras, as pessoas passam a acreditar que as manifestações artísticas e artistas que pouca oportunidade tiveram de participar da cultura comum por preconceitos de raça, gênero e origem são o fim da liberdade.
Durante a última Universidade de Verão do PSD, a Ministra da Cultura Margarida Balseiro Lopes trouxe duas questões: a primeira, a problemática de organizar políticas públicas culturais efetivas por falta de dados atualizados. De fato, essa é uma questão da cultura: jamais será estável e mapeável como objeto circundável. As manifestações culturais, as expressões artísticas, as criações, os públicos e os contextos estão sempre a se mover. O olhar estatístico há de ser sempre constante. O que traz uma inquietação paralela: qual mecanismo de mapeamento foi desenvolvido pela equivocada e enigmática gestão anterior do Ministério da Cultura, já em mãos do mesmo primeiro-ministro?
A segunda questão é menos demagógica e mais perigosa. Em sua fala, a ministra diz se preocupar com a “ditadura do gosto”, seleções de projetos por visões estatísticas, e afirma que a cultura é de todos e precisa de todos, “sem palas ideológicas, sem divisões artificiais e sem dogmas”.
Em um cargo governamental, tudo dito é político, portanto ideológico e dogmático, pois são mais do que crenças, são determinações às ações reais desdobradas sobre as instituições e escolhas. Talvez a ministra tenha se esquecido disso ou de quem era quando falava. Ao falsificar o discurso com o correto “para todos”, diz, no interior da frase, para todos desde que não sejam ideologicamente contrários ao que nos interessa e nem ataquem os dogmas defendidos. Isso se traduz em diminuir e afastar outra vez os mesmos artistas e as mesmas ideias que precisaram de séculos para se manifestarem. A liberdade que protege precisa, para acontecer, que nem todos a acessem.
Defender tal perspectiva é tanto quanto instituir uma ditadura de gosto, como denunciou, porém com diferenças. O gosto de um artista é uma perspectiva de como se coloca ao mundo enquanto sujeito; o gosto de uma ministra é proposição de uma política sobre como conduzir o mundo e a relação deste com os sujeitos. Ao fim, quando diferenciados os gostos, não me parece possível uma ditadura dos artistas, por mais organizados e fortalecidos institucionalmente. Já quando feito pela política...
Não há uma identidade a ser combatida — negro, mulher, LGBTQIAPN+, refugiado, imigrante, cigano —, pois estas são construções. A identidade, como explica Amartya Sem, não é fixa, nem mesmo a cultural. Portanto, menos ainda a identidade artística. Por ora, ela é como tem se mostrado. Amanhã será outra. Porque a arte, verdadeiramente, organiza-se pelo incômodo, pelo ausente, pela falta, pela crítica. E sempre haverá algo a incomodar, quem não está, aquilo que falta, o errático. O mundo liberal não é outro senão a manifestação incessante de políticas de exclusão, sabemos. Reduzir os indivíduos a uma identidade específica, única, determinando-lhes por ela seus destinos é uma ilusão ingênua, e pode vir a ser uma metodologia de opressão.
O fato é: enquanto as diferenças forem afirmadas como retóricas políticas fora das diferenças reais culturais e sociais, a divergência tenderá a crescer, a confiança institucional a diminuir, a coesão social a ser impossível. A arte não pode participar desse movimento. E, para tanto, é preciso estar atenta e não se entregar tão facilmente ao uso contra si mesma.
Sugestões de leituras:> Fanáticos Insulsos, de Pankaj Mishra. Galaxia Gutenberg, 2020.
> Bowling Alone: Revised And Updated: The Collapse And Revival Of American Community, de Robert D. Putnam. Simon & Schuster, 2020.
> Identidade e Violência: A Ilusão do Destino, de Amartya Sen. Tinta da China, 2007.
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