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Teremos sempre Ingrid Bergman… à meia-luz

Teremos sempre Ingrid Bergman… à meia-luz

Faria hoje 110 anos. Faleceu há 43 anos mas ainda hoje é adorada pela sua vasta legião de fãs, onde eu me incluo.

Com a sua larga, translúcida e luminosa face, Ingrid Bergman tem um lugar mais que assegurado na história de Hollywood. Não só era dotada desse rosto que derretia as câmaras como tinha muito talento, uma performance de maior contenção emocional que não parece tão datada quanto a de outras atrizes da sua geração, bem como um punhado de filmes inolvidáveis.

Nasceu a 29 de agosto de 1915, em Estocolmo, e morreu também no mesmo dia e mês, mas em 1982. Faria hoje, portanto, 110 anos. Órfã de mãe desde os dois anos, Bergman estudou na Real Escola de Arte Dramática de Estocolmo, estreando-se no cinema sueco antes de terminar o curso. Durante a década de 1930, fez alguns filmes no seu país natal até ser, em 1939, levada pelo poderoso produtor David O. Selznick para Hollywood.

Bergman, já casada e mãe, partiu sozinha para as terras do Tio Sam para participar na versão americana de um dos seus filmes suecos: Intermezzo. Dois anos mais tarde, ela faria dois filmes apenas razoáveis, mas dos quais vale destacar o tenebroso Rage in Heaven por mostrar pela primeira vez o papel a que a atriz ficaria mais associada: o de vítima atormentada por um homem.

Ela teve um papel parecido mas mais trágico no filme de terror Dr. Jekyll and Mr. Hyde (1941), dando vida a uma provocante bairmaid. É um desempenho fabuloso (o meu preferido), sendo que Bergman conseguiu imprimir uma franca sexualidade que, misturada com uma irresistível vulnerabilidade, roubou o filme a Spencer Tracy (e isso é qualquer coisa). Foi no ano seguinte que se tornou uma grande estrela ao participar no seu filme mais emblemático, Casablanca, junto a Humphrey Bogart que era mais baixo que ela (Bergman era muito alta, medindo 1,75 metros), o filme que viria a ser a antonomásia do cinema clássico.

O guião era reescrito todos os dias e ninguém sabia com quem é que a personagem de Bergman iria ficar, se com Bogart se com Paul Henreid. Isso não ajudava na hora de representar, mas o filme foi um sucesso gigante e o resto é História.

Em 1944, chegou um dos seus filmes mais importantes: o thriller gótico Gaslight, onde uma tocante interpretação lhe valeu o primeiro dos seus três Óscares de Melhor Atriz (mais uma vez, Bergman fez de vítima atormentada).

Já tinha trabalhado com realizadores notáveis, como George Cukor, mas foi em 1945 que integrou um filme do melhor realizador de sempre: Alfred Hitchcock. O filme de suspense era Spellbound. Este é particularmente interessante por mostrar, ao contrário do habitual, o protagonista masculino como sendo a figura frágil e Bergman como a mulher forte que toma as rédeas. O segundo filme de Bergman com Hitchcock foi o melhor filme de toda a sua carreira e a minha película preferida: o thriller romântico Notorious (1946). Mais uma vez, Bergman interpreta uma vítima. O filme conta com Cary Grant, o ator-fetiche do mestre do suspense. Com a sua aura de elegância europeia, Bergman e Grant são a dupla perfeita.

Estávamos em 1949, quando Bergman, desencantada com o artificialismo de Hollywood e com o facto de os seus últimos filmes não terem sido bem recebidos, lutou por ir fazer um filme neorrealista a Itália com o realizador Roberto Rossellini, Stromboli (1950). Tinha visto Roma, Citta Aperta (1945), do mesmo realizador e parecia-lhe uma lufada de ar fresco, emocionante, comovente e realista.

Rossellini e Bergman apaixonaram-se e esta engravidou. Hollywood ficou chocado e não perdoou que a “Santa Ingrid”, como era conhecida, que já tinha interpretado uma freira e a própria Joana d’Arc (que ela idolatrava) no cinema, fosse autora de tal “pecado”.

Tornou-se persona non grata nos EUA e uma nova carreira em Itália começou a desenvolver-se. Depois de vários filmes italianos e três filhos com Rossellini, Ingrid separou-se e, em 1956, conquistou um segundo Óscar por Anastasia, uma produção americana da Twentieth Century Fox, ainda que filmada na Europa.

Estava perdoada! Fez mais alguns filmes interessantes, mais diversificados (nunca foi muito convincente em comédia, devo dizer) como Murder on the Orient Express (1974), com o qual ganhou o Óscar de Melhor Atriz Coadjuvante, mas a sua filmografia mais interessante está, de facto, na década de 1940. Morreu de cancro da mama no dia do seu 67.º aniversário, em Londres, depois de já ter feito duas mastectomias. Faleceu há 43 anos mas ainda hoje é adorada pela sua vasta legião de fãs, onde eu me incluo. Sempre teremos Ingrid Bergman, um encanto à meia-luz.

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