www.publico.ptwww.publico.pt - 29 ago. 05:20

Cartas ao director

Cartas ao director

Lamento em Dó

Em Portugal vive-se e governa-se em permanente dissociação da realidade. Aquilo que desejamos e achamos que temos direito não é coadunável com a realidade objectiva da nossa condição económica. Queremos e achamos que temos o direito a ter habitação digna e confortável a preço compatível com o que podemos pagar, mas não temos. Consideramos que podemos ter uma assistência na doença de boa qualidade, sem falhas nem carências, mas gratuita, mas não podemos. Também protestamos porque achamos que nos devem ser proporcionados transportes urbanos rápidos, frequentes e de boa qualidade, mas não os temos. Na educação e na prestação da justiça protestamos porque não é boa a qualidade da escola pública, e porque a justiça é lenta e parece que tem pesos e medidas variáveis quando facilita as práticas derrogantes que fazem prescrever os processos dos poderosos, mas gostávamos que nada fosse assim.

A razão é sempre a mesma e está bem diagnosticada. Só que o "tratamento" não tem passado de pachos quentes e uns analgésicos quando a dor é grande e o sobressalto acontece. Não depende de o governo ser mais à esquerda ou à direita, fazem-se uns inquéritos parlamentares, criam-se umas comissões ou grupos e trabalho, nomeiam-se uns "espertos" nas matérias em crise, fazem-se recomendações, escrevem-se planos e ensaiam-se programas para que, como Lampedusa escreveu, tudo fique na mesma.

Cinquenta anos depois de Abril de 74 já devíamos ter percebido que não somos capazes. Quem nos governa, os de hoje como outros ou os mesmos até agora, não sabe ou não consegue "dar a volta" para podermos criar riqueza e usá-la para uma nova realidade que permita reassociar os desejos com a prática. Outros, com dimensão semelhante e geografia menos favorável, o fazem, nós não conseguimos. Estou cansado e descrente, para não dizer desiludido.

​​Jorge Mónica, ​Parede

Os populismos...

À carta de Vítor Serrão publicada ontem no PÚBLICO, gostava de acrescentar algumas notas que me parecem não ser de somenos na análise da questão.

O crescimento do neofascismo português, como no resto do mundo ocidental, faz-se acompanhar, simultaneamente, da desmobilização política da maioria da população. Mais: do esvaziamento ideológico e material da própria discussão política. A política torna-se um discurso vagamente técnico ou tecnicista, em que não há espaço para a discordância de fundo, para uma diferente concepção do mundo; concretizando, para um discurso de classe identificado como tal. Desse modo, qualquer movimento político é equalizado com o seguinte, qualquer opinião se torna igualmente válida, qualquer discordância se torna um ataque, pelo que se procura a inadequação de determinado movimento ou partido, não na sua mundividência, ou sequer nas suas propostas ideológicas, mas nos "populismos".

Ora, o populismo é, por alto, um modelo de comunicação de massas com uma longa história na história dos movimentos operários, usado por Lenine como por Vasco Gonçalves, como pelos movimentos social-democratas dos vários países, como pelas Frentes Nacionais, como pelos socialistas clássicos... E cuja novidade, cerca do princípio da centúria de novecentos, foi ser cooptado pela classe dominante para as ideologias que procuraram devolver-lhe legitimidade política. Nas discussões que se têm vindo a desenvolver, mesmo entre sectores que se afirmam progressistas, dilui-se o perigo da ideologia fascista na sua linguagem, e faz-se nominalmente igual o "radicalismo" de esquerda e o de direita.

Erode-se, assim, e para terminar, a capacidade de distinguir discursos, conteúdo e consequências; dentro do sistema liberal, a permanência das ameaças; e, dentro delas, aquelas com que se concorda ou não, e porquê.

Miguel Luís, Abrantes

Esta Lisboa que amo

Lisboa, cidade das sete colinas, de uma beleza rara e de uma luz única, tenta conciliar o turismo que vai afastando os moradores dos bairros da cidade — e sem moradores deixa de haver bairros — e que a vai descaracterizando, substituindo o que é nosso por aquilo que vamos vendo em todas as cidades.

Esta mais-valia, que Lisboa tem e vai perdendo aos poucos, é a galinha de ovos de ouro, e um dia poderá ter um fim. Como residente desta Lisboa, é muito difícil assistir a esta transformação e, mesmo querendo conciliar estas duas realidades, o que assistimos é uma cidade suja e com mau cheiro, é uma cidade com lojas de luxo à frente das quais vemos pessoas sem-abrigo, é uma cidade com trânsito desordenado e cheia de grupos de turistas atrás de guias. Continua a faltar uma visão e uma estratégia para Lisboa, esta cidade que eu amo.

Luís Filipe Paisana, Lisboa

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