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Real Bordalo e a estética do elemento primordial (in memoriam)

Real Bordalo e a estética do elemento primordial (in memoriam)

Neste 29 Agosto de 2025 assinala-se o primeiro centenário do nascimento do pintor Real Bordalo.

A água estava ali para nos transportar como um abraço gigante; havia sempre a água para nos repousar, e que nos transmitia as vidas e os amores, as palavras e os pensamentos.Anaïs Nin, A Casa do Incesto, 1958.

Nascido Artur Chaves Real Bordalo da Silva, em Lisboa, logo despertou para o Tejo – esse mago líquido e sinuoso, pleno de neblinas, luzes, cores, aromas e sons que indelevelmente encantam e transmudam a cidade. O grande rio, contemplado desde a infância com olhos que reflectiam as tonalidades das águas e dos seus temperamentos, cambiando entre o verde, o azul e o cinzento, fecundou a imaginação da criança e inspirou a sensibilidade do artista. Não menos influentes terão sido as aguarelas que recebeu dos pais, Artur e Adélia, no dia em que completou seis anos de vida. Nenhum outro material se teria adequado tão bem.

O aguarelista é um demiurgo. Ao pintar com água, comunga com os deuses e com eles concorre para o acto criador, fazendo surgir ou diluir as mais diversas formas a partir do elemento primordial – segundo Thales de Mileto , essa massa fluida que adquire contornos mais nítidos ou mais difusos, mais vivos ou mais esmaecidos, fundindo-se no papel ou alastrando-se e tingindo, lentamente, a tela.

O meio líquido é instável e proteiforme. Para dominá-lo, são necessárias virtudes fundamentais como a previsão e a precisão – a primeira, resultante da argúcia do intelecto, e a segunda da prática do acto físico –, que por sua vez requerem o conhecimento profundo, ainda que empírico, de reacções físicas e químicas da água à composição dos pigmentos que nela se dissolvem, e deste soluto à qualidade e espessura das fibras do pincel, bem como à capacidade de absorção e calibragem do suporte em que se encontram. Criador e timoneiro, o aguarelista deixa velejar os pincéis com sageza e perícia, percorrendo e orientando o curso das águas num terreno árido que, assim, se torna fértil.

Foto DR

A aguarela não permite margem para erro, nem tempo para hesitações. Há a necessidade do controlo e a urgência da reacção; há a competência da estratégia e a destreza do gesto; ao contrário do que sucede na pintura a óleo – que Real Bordalo também explorou com igual mestria, demorando-se nos empastamentos e analisando texturas –, na aguarela dificilmente se corrige, e, as camadas que se sobrepõem, raramente ocultam o acidente. É uma técnica que exige sapiência, confiança, agilidade e domínio. Todas estas qualidades assistiam a Real Bordalo.

Além da aguarela e do óleo – pelo qual chegou a fazer uma incursão no imaginário do surrealismo, embora tivesse regressado ao naturalismo –, Real Bordalo também pintou cerâmica na Fábrica Battistini e realizou cartões para tapeçaria da fábrica de Manufacturas de Portalegre. Contudo, foram as aguarelas e os óleos que privilegiou e mais deu a conhecer em numerosas exposições colectivas e individuais, sendo, nestas últimas, simultaneamente curador, designer e guia. Cada exposição era pensada, montada, promovida e divulgada pelo próprio artista.

Foto DR

Recordo o mestre numa exposição individual, que realizou em 1997, na Gallery Center das Amoreiras. Sem me conhecer, acolheu-me afavelmente à entrada e acompanhou-me pacientemente até ao fim, numa espécie de visita guiada informal que me permitiu colocar questões e receber ensinamentos. Toda a cidade estava ali retratada: o rio atravessado por cacilheiros, os eléctricos serpenteando as ruas, as fachadas da baixa pombalina, monumentos e estátuas, os transeuntes e as suas sombras projectadas na calçada portuguesa, ou os seus reflexos espelhados nas poças. De olhos brilhantes e sorriso comedido, concedeu-me um autógrafo com dedicatória no folheto da exposição, que guardo até hoje, e convidou-me a visitar as exposições futuras – uma delas inteiramente dedicada ao Porto e, como seria de esperar, tendo como protagonista o rio Douro.

Muitos anos depois, já após o seu falecimento em 2017, conheci a última casa que habitou e onde pintou. No apartamento, em Benfica, o espaço que lhe servia de ateliê permanecia intocado em Novembro de 2023; era exíguo e ainda mais parecia ser com a profusão de cavaletes, telas e papeis ainda virgens, dialogando com outros já começados ou terminados, tubos de tinta abertos e por encetar, pinceis de todas as espécies e números, livros, serigrafias, catálogos, postais e cartazes de exposições. Volvidos alguns meses, foi desmontado pelo filho, o compositor e guitarrista Rui Bordalo, para a venda da casa. Na mesma altura, o seu neto, o “artivista” Bordalo II, concebia a terceira edição numismática da série Arte Contemporânea Urbana da Imprensa Nacional Casa da Moeda.

Uma parte muito significativa do imenso espólio artístico familiar de Real Bordalo teria merecido uma exposição retrospectiva dos 100 anos de vida do artista (como, aliás, chegou a ser projectada para o Palácio Baldaya), mas várias vicissitudes acabaram por inviabilizar a sua concretização. A data fica, no entanto, assinalada com esta memória.

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