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Passados 20 anos, estamos mais vulneráveis a outra catástrofe como a do Katrina

Passados 20 anos, estamos mais vulneráveis a outra catástrofe como a do Katrina

A temperatura da água do mar está mais alta do que em 2005, potenciando furacões como o que arrasou Nova Orleães. Há mais consciência de que as alterações climáticas alimentam estas tempestades.

Os ventos de 281 km por hora do furacão Katrina, que há 20 anos se abateram sobre Nova Orleães, tiveram como combustível as águas quentes do Golfo do México, que durante vários dias se mantiveram acima dos 28 graus Celsius. Hoje, com as alterações climáticas, a água do mar está ainda mais quente. São maiores as probabilidades de se repetir uma tempestade tão apocalíptica.

Por causa do Katrina morreram perto de 2000 pessoas, muitos milhares ficaram sem casa e grande parte da população nunca voltou. Com a quebra dos diques que protegiam a cidade do Mississípi, 80% do espaço urbano ficou inundado e os prejuízos totais, a preços actualizados para 2024, foram na ordem dos 200 mil milhões de dólares (mais de 171 mil milhões de euros).

“As alterações climáticas tornaram 18 vezes mais provável acontecer esta temperatura do oceano”, calcularam os cientistas do grupo independente norte-americano Climate Central, a propósito dos 20 anos do devastador furacão. Esta água morna fez com que a velocidade do vento aumentasse 8,8 km por hora. E cada décima de aumento da temperatura da água do mar à superfície potencia as tempestades tropicais que se transformam em furacões no Atlântico. Se a velocidade do vento do Katrina aumentasse mais 8,8 km por hora, os estragos seriam 25% maiores, estimam estes investigadores.

“Já em 2005 as alterações climáticas estavam a influenciar os furacões na bacia do Atlântico e os seus impactos”, comentou Daniel Gilford, meteorologista e cientistas do clima da Climate Central.

Mas a má notícia é que as águas do oceano têm vindo a aquecer cada vez mais, e os 28 graus que na altura eram excepcionais, começaram a tornar-se relativamente comuns. A temperatura da água na costa do estado da Louisiana, por estes dias, é de 31 graus. “Se o Katrina se tivesse formado com o clima tal como está hoje, provavelmente seria um furacão ainda mais poderoso”, conclui Gilford.

É preciso que se conjuguem vários factores. É preciso que uma tempestade poderosa entre em terra perto de uma zona densamente povoada, e se para além disso encontrar armadilhas como os diques que rebentaram e contribuíram para as devastadoras inundações de Nova Orleães… Bem, conjugam-se os factores para uma nova desgraça.

A parte de termos uma água anormalmente quente como combustível das tempestades tornou-se mais fácil de perceber, porque 90% do calor em excesso do planeta é absorvido pelo oceano. E o aquecimento global está a intensificar-se.

Consciência mudou

Em 2005, na altura do Katrina, a responsabilidade pela dimensão do desastre foi atribuída à incúria dos políticos, aos responsáveis pelo planeamento de emergências, ao racismo estrutural que permitiu que os mais afectados fossem os habitantes negros e pobres de Nova Orleães. Não se falou muito nas alterações climáticas, e quando se falava na possibilidade de haver um nexo entre aquecimento global e poderosas tempestades, era sob a forma de uma interrogação para a qual os cientistas procuravam resposta.

Foto Tudo o que restou da casa de Richard Johnson na zona de Biloxi, em Nova Orleães, após a passagem do Katrina, foram as escadas TANNEN MAURY/EPA

Mas notou-se uma grande diferença entre o discurso nos media sobre o Katrina, em 2005, e aquele sobre outro furacão devastador, o Sandy, que chegou a terra na zona de New Jersey, em 29 de Outubro em 2012, e causou pelo menos 65 mil milhões de estragos numa área vasta do Nordeste dos EUA.

“Alterações climáticas e energia foram temas abordados em conjunto com frequência na cobertura dos media após o furacão Sandy, mas o tema ‘alterações climáticas’ está ausente da discussão após o Katrina”, conclui uma equipa de cientistas da Universidade do Vermont, publicada em 2016 na revista científica Journal of Environmental Studies and Sciences.

Neste período, houve uma mudança na percepção do que são as alterações climáticas e de que forma põem em perigo as vidas humanas e os locais onde vivemos.

De o Katrina se tivesse formado com o clima tal como é hoje, provavelmente seria um furacão ainda mais poderoso Daniel Gilford

Após o Katrina, quando os media abordavam a possibilidade de a intensidade do furacão estar relacionada com o clima em mudança, usavam-se palavras como “teoria”, “pouco provável”, “acredita-se”, escreve a equipa de Emily Cody, principal autora do estudo. E quando se fala em energia, o foco é nos preços, ou nos mercados (a produção e transporte de petróleo ficou afectada pela tempestade).

Sete anos depois, após o furacão Sandy, a linguagem era diferente. As expressões “alterações climáticas” e “aquecimento global” já surgem com alguma frequência, bem como “emissões”, “carvão” e “dióxido de carbono”, por exemplo.

Repetição não é impossível

Esta mudança de linguagem, e de compreensão dos efeitos das alterações climáticas, dos fenómenos meteorológicos extremos, aconteceu em menos de uma década. Hoje, é frequente falarmos em alterações climáticas quando confrontados com estas catástrofes, como as chuvas intensas e inundações no Texas, no início do Verão.

Foto Habitantes de Nova Orleães atravessam a Avenida Tulane com água pela cintura, após a passagem do Katrina SEAN GARDNER/EPA

Mas se o então Presidente George W. Bush foi intensamente criticado, bem como a agência federal de emergências (FEMA), neste momento, a Administração de Donald Trump está apostada em eliminar a FEMA e em negar os efeitos — acabar com a ciência — das alterações climáticas. Os apoios às populações mais vulneráveis nos Estados Unidos também estão a ser cortados.

Portanto, as probabilidades de algo que parecia impossível, a repetição de um desastre como o do Katrina em Nova Orleães, parecem cada vez mais elevadas. Uma análise da resseguradora Swiss Re estima que, se acontecesse de novo, a perda de bens segurados chegaria a 100 mil milhões de dólares (85.556 milhões de euros) — quase os mesmos 105 mil milhões (89.835 milhões de euros) de perda de bens segurados provocada pelo Katrina.

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