publico@publico.pt - 29 ago. 14:45
Camões Oficial da Identidade
Camões Oficial da Identidade
O 10 de Junho foi em 1880, por decreto real de D. Luís I, declarado Dia de Festa Nacional e de Grande Gala; nos anos 20 do século republicano, feriado comemorativo da Festa de Portugal; no Estado Novo, Dia de Camões, de Portugal
O 10 de Junho foi em 1880, por decreto real de D. Luís I, declarado Dia de Festa Nacional e de Grande Gala; nos anos 20 do século republicano, feriado comemorativo da Festa de Portugal; no Estado Novo, Dia de Camões, de Portugal e da Raça; fez-se no tempo democrático Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas.
Poderia ser eleito dia nacional, com maior lógica, 5 de Outubro, o da emancipação de Portugal em 1143, acordada entre D. Afonso Henriques e D. Afonso VII de Leão e Castela no tratado de Zamora; de resto, coincidente com a implantação da República. Ou 23 de Maio, o de 1179, em que a bula Manifestis Probatum do papa Alexandre III declarou independente o reino português. Louvável é associar a data ao maior poeta da língua, sendo a pátria, mais do que território, a comunidade dos que falam o idioma. Mas celebrar a morte, para mais tendo como referência o ano de 1580, em que a independência foi perdida para a Espanha filipina, parece ideia imponderada e triste. Desconhecida a data do nascimento de Camões, seria preferível vesti-lo de oficial da identidade a 12 de Março, dia de 1572 em que foi publicada a primeira edição d’Os Lusíadas.
É absurdo pensar que um génio como Camões foi escolhido para símbolo nacional por corresponder à normal personalidade psicossocial do povo português; ou, do que se sabe e é lícito conjecturar, que a índole e vivência conviriam ao estereótipo temperamental e comportamental dos portugueses. Mas arrisquemos alguns traços tendentes do ser luso, não ignorando que são generalizações culturais.
A mentalidade fidalga, sem título nem património, pobre e errante, que subsiste de serviços a nobres maiores, da carreira militar ou do funcionalismo administrativo, com horror a trabalhos produtivos. O gosto pela ostentação, mesmo à custa de privações, e o desleixo da dissipação perdulária, sem sentido prático para conservar ou recapitalizar os proventos. O individualismo obstinado, mas inseguro, na guarida de uma figura paternal que tome as decisões e assuma responsabilidades. As reacções intempestivas de violência quando o orgulho se sente ultrajado ou a honra ofendida, susceptível a armar uma briga de arrancar. O fito ou necessidade de apartamento da pátria terra, para tentar da Fortuna o movimento onde se vislumbre uma vida menos vil e mais próspera. O fatalismo que aceita queixoso o sofrimento como inevitabilidade, ordenado por um plano divino a que o engenho humano não se estende. O catolicismo de veia pagã, impregnado de superstição e crença no milagre, que laiva a forte sensualidade com sentimentos de culpa e requer o arrependimento para a última salvação. O feitio apaixonadiço, inerme à força crua que os corações tanto obriga, fazendo do amor uma fé e das suas penas uma lei da vida.
Camões foi erguido a símbolo nacional em momentos históricos deprimidos por necessidade de razões de orgulho, quais os pátrios feitos valerosos que lidimamente ele exaltou. Cantará, no presente, a sua voz mais que perfeita a gente surda e endurecida?