rr.pt - 29 ago. 09:06
"Lucas, o Lobo na Pele de Coelho". Um livro para crianças e pais sobre "empatia e a aceitação de si próprio"
"Lucas, o Lobo na Pele de Coelho". Um livro para crianças e pais sobre "empatia e a aceitação de si próprio"
O jornalista André Rodrigues escreveu um conto infantil em que um lobo não come carne, apenas gosta de cenouras. Um desafio que começou como uma história para adormecer o filho e que, entretanto, tornou-se um livro infantil com lugar na Feira do Livro do Porto deste ano. A Renascença falou com o autor sobre os desafios de escrever para os mais novos.
Tudo começou com uma história para adormecer. André Rodrigues queria apenas deitar o filho, na altura com três anos, mas a criança pediu uma história em que o lobo não fosse mau.
"Ficou a olhar para mim, do género: Agora, inventa", conta, à Renascença.
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Longe estava, ainda, de perceber que este seria o primeiro passo que acabaria por resultar no livro infantil "Lucas, o Lobo na Pele de Coelho", já nas bancas. Uma narrativa sobre um jovem Lobo que, ao contrário do resto da alcateia, não é feroz, não gosta de caçar, nem come carne. Na verdade, gosta de comer cenouras.
Estes pormenores surgiram na conversa entre autor e filho, em que perceberam "que havia ali uma característica naquela personagem que nos desvia daquilo que nós esperamos que ela seja". Esta personagem, o Lucas, é "exatamente o contrário" do estereótipo de um lobo em contos de crianças. "É alguém que se sente fora da realidade convencionada para essa figura", explica André Rodrigues.
A história foi contada "em cinco minutos", mas ficou na memória da criança e, no dia seguinte, contou à educadora, que achou graça à história. André Rodrigues foi convidado a ir ao infantário repetir a narrativa e correu tão bem que a educadora lançou o desafio: "Quando é que vamos ter essa história em livro?".
Ao início, o jornalista hesitou, mas acabou por aceder. Quando a editora Cordel D' Prata lançou um concurso para contos infantis, André Rodrigues decidiu participar... e não ganhou. No entanto, algumas semanas depois, a editora voltou ao contacto, acreditando haver potencial na história.
"Ganhei, sem ganhar. É uma forma de ver a questão", admite.

Pelas suas características invulgares, Lucas tem medo de dececionar a família e não corresponder às suas expectativas. Em segredo, disfarça-se de coelho e rouba cenouras a uma horta de dois esquilos.
Uma história que André Rodrigues sublinha ser "sobre empatia, o respeito pelo outro e a aceitação de si próprio" e espera poder servir de ferramenta "para pais, para professores e para as próprias crianças".
O autor acredita que o livro ajuda os pais "a entender questões muito importantes sobre como educar os filhos", principalmente "no que toca às expectativas que temos".
"A família do Lucas tem um pai muito tradicionalista e tinha um filho que não se sentia bem naquela realidade. Havia ali uma cegueira da tradição da família que impedia o filho mais novo de ter medo de expressar aquilo que verdadeiramente sentia", explica. E essa necessidade de, em segredo, ser quem verdadeiramente queria ser "levou-o, no limite, à infração".
André Rodrigues aponta que a aceitação de quem cada um é essencial "para os pais perceberem em relação aos filhos, mas que os miúdos também precisam de interiorizar para si próprios", tendo sempre em conta que "podem ser sempre aquilo que querem ser e concretizar o projeto de vida que querem ter, desde que não se prejudiquem e não prejudiquem terceiros".
"Um respeito que não signifique ter de andar em constante infração contra a sociedade. Acho que pode haver espaço, num mundo com convenções, para a liberdade de querer ser quem quem se é", acrescenta.

André Rodrigues não é um novato nestas andanças. Em 2019, já tinha lançado o livro "Números Que Contam Histórias". Só que esse livro tem uma linguagem informativa, longe da ficção infantil de "Lucas, o Lobo na Pele de Coelho".
O novo livro exigiu que o autor se pusesse de "cócoras", ou seja, ao nível das crianças. Quando vai fazer uma hora do conto à escola do filho, "sento-me no chão, ao lado deles e na escrita é um bocado isso que se faz também".
"No fundo, é tu pegares naquilo que sentes que são os valores que queres transmitir aos teus filhos e colocares isso no papel. Sabes que tens determinados valores que queres passar aos teus filhos e tens que colocar isso numa linguagem que eles percebam", indica.
E, agora, cumprido o desafio da educadora e com o livro já editado, pode haver mais histórias? "Pode", responde o autor, que "já tem mais uma ou outra história" escrita.
André Rodrigues confessa que, quando se começa a escrever, "há uma vaga de inspiração que se deve aproveitar. Um pouco como surfar a onda".
"Depois da história ter sido entregue à editora, há já um ou outro rascunho. Tudo isto foi uma conjugação do trabalho que tive em escrever, com a oportunidade que surgiu. Podes ter o trabalho e a oportunidade não surgir. Se surgir a oportunidade e outros contos tiverem essa possibilidade, provavelmente não ficamos por aqui", diz.
Entretanto, "Lucas, o Lobo na Pele de Coelho" já está à venda e terá a sua sessão de lançamento este domingo, 31 de agosto, na Feira do Livro do Porto.