rr.ptrr.pt - 29 ago. 15:54

Egipto detém jovens do TikTok para tentar controlar redes sociais

Egipto detém jovens do TikTok para tentar controlar redes sociais

Cidadãos são incentivados a denunciar conteúdos considerados imorais que sejam publicados pelos influencers no TikTok.

As autoridades egípcias lançaram uma campanha contra jovens influenciadores do TikTok, alguns com milhões de seguidores, detendo dezenas nas últimas semanas sob acusações que vão de “violação dos valores familiares” a branqueamento de capitais.

A polícia anunciou várias detenções e a Procuradoria afirma estar a investigar pelo menos dez casos de ganhos financeiros ilícitos. Foram decretadas interdições de viagem, congelamento de bens e apreensão de dispositivos eletrónicos.

Os críticos da medida dizem que se trata de mais um passo no esforço do Estado para controlar a expressão online e regulamentar comportamentos, num país onde as redes sociais têm sido um dos poucos espaços alternativos à comunicação social dominada pelo governo.

Entre os detidos está Mariam Ayman, de 19 anos, conhecida como Suzy El Ordonia, com 9,4 milhões de seguidores. Presa desde 2 de agosto, enfrenta acusações de difusão de “conteúdo indecente” e branqueamento de 15 milhões de libras egípcias (cerca de 300 mil euros). No seu último vídeo, publicado um dia antes da detenção, reconheceu sentir-se sob ameaça: “Os egípcios não são presos só porque aparecem no TikTok”, afirmou.

Os advogados defendem que as leis sobre indecência são vagas e permitem às autoridades analisar todo o histórico de publicações de um criador, bastando encontrar um único vídeo considerado problemático para abrir processos por crimes financeiros relacionados com os ganhos obtidos online.

Fama digital e arbitrariedade legal

Tal como milhões de adolescentes, Suzy começou a publicar pequenos vídeos do quotidiano. Ganhou notoriedade depois de uma transmissão em direto com uma resposta rimada ao pai, cobrador de autocarros, que se tornou viral em todo o país. A partir daí acumulou milhões de seguidores, que a acompanhavam em jantares com amigos, viagens ou momentos familiares.

Apesar de a maioria dos vídeos não ter conteúdo político, alguns foram interpretados como críticas implícitas às dificuldades da vida no Egipto. Pouco depois de participar num podcast onde falava dos seus sonhos para a família, o próprio entrevistador também foi detido.

Segundo a Iniciativa Egípcia pelos Direitos Pessoais (EIPR), a Procuradoria baseia-se num artigo da lei de crimes cibernéticos de 2018 que criminaliza a violação de “valores familiares da sociedade egípcia”. A organização contabilizou pelo menos 151 pessoas acusadas ao abrigo deste artigo em mais de 109 processos nos últimos cinco anos, sublinhando que o número real pode ser superior.

Reações e impacto social

À medida que a campanha avança, os cidadãos são incentivados a denunciar conteúdos considerados imorais. O próprio Ministério do Interior mantém uma conta no TikTok onde alerta criadores para “respeitarem os valores”.

Influenciadores relatam estar a ser alvo de comentários em massa a acusá-los de imoralidade e, em alguns casos, de teorias infundadas, como alegações de envolvimento em redes de tráfico de órgãos.

A repressão, que começou sobretudo com utilizadoras do sexo feminino, já se estendeu a pessoas com opiniões religiosas divergentes ou pertencentes à comunidade LGBT. Há também registo de investigações com base em conteúdos privados que nunca chegaram a ser publicados, mas que foram divulgados a partir de telemóveis apreendidos.

Especialistas sublinham que, apesar dos ganhos no TikTok serem inferiores aos de outros países – cerca de 1,02 euros por mil visualizações, contra dez vezes mais nos EUA – representam uma fonte de rendimento significativa no contexto egípcio.

“O Estado deveria olhar para os fluxos financeiros das empresas, não para os criadores de conteúdos”, afirmou Tamer Abdul Aziz, especialista em branqueamento de capitais.

O governo egípcio não respondeu aos pedidos de comentário da Reuters.

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